Excesso de telas na infância: como reduzir e estimular atividades offline
Orientações de pediatras e atividades fora do ambiente digital ajudam a equilibrar o tempo de tela das crianças
Créditos: istock/Pyrosky
O uso prolongado de celulares, tablets e computadores entre crianças tem preocupado especialistas em saúde e educação. Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria indicam que crianças menores de 2 anos não devem ser expostas a telas. Entre 2 e 5 anos, o tempo recomendado é de, no máximo, uma hora por dia, sempre com supervisão. Já entre 6 e 10, o limite sugerido é de até duas horas diárias. Mesmo assim, pesquisas apontam que muitas famílias ultrapassam esses parâmetros, ampliando o debate sobre os efeitos do excesso de telas no desenvolvimento infantil.
Além da duração, a forma de uso também é discutida por pesquisadores. Segundo o pediatra Daniel Becker, em entrevista ao portal G1, o contato intenso com ambientes digitais pode interferir no desenvolvimento social de crianças e adolescentes. “Essas crianças e adolescentes vão perder em habilidades, em capacidades, em relacionamento, em autoconhecimento. Ele acha que está em um grupo de milhares de amigos pertencentes, mas aquilo é uma ilusão”, afirmou.
O impacto do ambiente digital no desenvolvimento infantil
Segundo o Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais, do Governo Federal, o desenvolvimento do cérebro jovem ainda está em formação, especialmente o córtex pré-frontal, responsável por controle de impulsos e tomada de decisões, o que torna esse público mais vulnerável a estímulos constantes de redes sociais e aplicativos.
Assim, o tempo de tela prolongado pode afetar aspectos cognitivos, motores e sociais das crianças. O uso excessivo de dispositivos eletrônicos também está associado a alterações na atenção, dificuldade de concentração e redução de atividades físicas no cotidiano infantil.
Outro ponto discutido por educadores é o impacto sobre a criatividade e a interação social. Quando grande parte do tempo livre é ocupada por conteúdos digitais prontos, diminui o espaço para atividades que exigem experimentação e imaginação. Brincadeiras tradicionais, leitura e atividades manuais passam a competir com estímulos visuais rápidos oferecidos pelos aplicativos.
Esse fenômeno também é chamado por pesquisadores de “chupeta digital”, termo utilizado para descrever situações em que telas são usadas como forma de acalmar ou distrair crianças por longos períodos. Esse comportamento pode prejudicar habilidades de comunicação e convivência social, especialmente na primeira infância.
Estratégias para reduzir a dependência tecnológica em casa
Diminuir o excesso de telas exige mudanças na rotina familiar. Em vez de apenas restringir o acesso aos dispositivos, é recomendado oferecer atividades atrativas fora do ambiente digital.
Daniel Becker defende que a criação de experiências interessantes no mundo real ajuda a reduzir a dependência tecnológica. “Criar um mundo bom do lado de fora do celular. Isso é uma tarefa das famílias, mas não é fácil também. Oferecer um mundo bacana, que compita com esse celular que é tão bacana para eles”, afirmou.
Algumas estratégias simples podem ajudar a estimular atividades offline, como:
- reservar períodos do dia para brincadeiras sem dispositivos digitais;
- incentivar atividades artísticas, como desenho, pintura e artesanato;
- promover jogos de tabuleiro ou leitura em família;
- estimular atividades físicas ao ar livre.
Outra alternativa é transformar conteúdos digitais em experiências manuais. Uma técnica eficaz para desconectar os pequenos é baixar coleções de artes e utilizar a impressora para disponibilizar desenhos temáticos que as crianças possam pintar e personalizar com materiais físicos. A proposta é usar a tecnologia como ferramenta intermediária, mas direcionar a atividade final para o papel, estimulando concentração e coordenação motora.
Educadores também destacam que atividades manuais ajudam no desenvolvimento da autonomia e da criatividade. Pintar, montar brinquedos ou criar histórias em papel são experiências que exigem planejamento e experimentação – habilidades importantes no desenvolvimento infantil.
Equilíbrio estratégico no desenvolvimento
No fim das contas, o desafio não está apenas em limitar dispositivos digitais, mas em equilibrar o uso da tecnologia com experiências concretas do cotidiano.
Ao ampliar o contato das crianças com atividades físicas, sociais e criativas, famílias conseguem construir rotinas mais diversificadas e reduzir os impactos do excesso de telas no desenvolvimento infantil.
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