Chuva de Hipocrisia nas Manchetes Tropicais
Por Eriberto Henrique (ou quem sabe, só mais um cronista molhado da alma)
Quando chove em Pernambuco, não molha só o chão: molha o juízo, os nervos, e principalmente, as capas dos jornalistas que ficam nas ruas surfado no caos. As legendas gritam com letras gordas: Caos nas ruas! E lá vem o cinegrafista saltando poças, o repórter encharcado na cintura, apontando o dedo para o céu como se São Pedro fosse o secretário de infraestrutura do município. A imprensa, vestida de salvadora da pátria, se faz de surpresa: como assim a cidade alagou de novo? Ora, será que esqueceram que o Recife é uma Veneza maltratada, onde os rios são tratados como valas e as valas, como paisagem?
Mas basta o céu abrir, o sanfoneiro puxar o fole e o São João chegar com seu cortejo dourado de dinheiro público, que a memória curta da mídia seca mais rápido que roupa no varal. Ninguém mais lembra da criança que perdeu o chinelo na enxurrada, nem da senhora que perdeu a casa na barreira. Tudo vira festa, fogueira, e frevo na contramão da vergonha. Os mesmos que ontem clamavam por drenagem, hoje exaltam trios elétricos como se fossem ambulâncias da alegria. É um samba de uma nota só, desafinado pela hipocrisia.
Não há reportagem especial sobre o custo de um camarote público, nem dossiê sobre o superfaturamento da tenda do forró. Ninguém exige prestação de contas do São João milionário em cidades que mal têm escola funcionando no inverno. Criticar a gastança virou pecado, heresia contra o “patrimônio cultural”. Mas ora, que cultura é essa que tapa buraco com confete e mascara a pobreza com balões de gás?
A imprensa, ou parte dela, para não ser injusto com os poucos que ainda têm coluna vertebral, se rende ao rebolado da política. Quando a lama é literal, são os primeiros a estender o microfone; mas quando a lama é simbólica, jogada por caminhões de cachê artístico, aí preferem dançar forró com o prefeito.
Chover, sempre vai chover. Mas o que precisa mesmo é uma tempestade de coerência, dessas que arrastam mais do que água: arrastam a máscara, o cinismo e a conveniência. Porque enquanto a imprensa escolher o glitter da festa em vez do barro da realidade, Pernambuco continuará sendo esse eterno ciclo de enxurrada e esquecimento.
E o povo? Esse, se molha e, também se ilude.
Eriberto Henrique
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