Expansão imobiliária e déficit habitacional pautam debate em exposição que homenageia padre Júlio Lancellotti
Roda de conversa na Lacerdine Galeria reúne jornalistas, advogados e artistas para discutir o direito à moradia Mostra também promove visitas de pessoas em situação de rua, que se reconhecem nas fotografias expostas
O avanço do mercado imobiliário, o déficit habitacional e o direito à moradia estarão no centro de uma roda de conversa promovida pela Lacerdine Galeria de Arte, na próxima quinta-feira, 5 de novembro, às 19h. Com o tema “A expansão imobiliária e a população sem casa?”, o encontro integra a programação da exposição “A Alfabetização do Olhar – um ato de amor e responsabilidade”, que homenageia a trajetória do padre Júlio Lancellotti e sua atuação junto à Pastoral do Povo da Rua.
Aberto ao público e com entrada gratuita, o debate pretende reunir diferentes perspectivas sobre o crescimento das cidades, a valorização imobiliária e as dificuldades de acesso à moradia, especialmente para a população em situação de vulnerabilidade social.
A conversa terá mediação do padre Júlio Lancellotti e contará com a participação do advogado Marcio Rachkorsky, comentarista do SPTV, da TV Globo; Ana Vallada, editora-chefe do SPTV1; Marcella Lorenzetto, apresentadora da Rádio CBN; Guilherme Muniz, âncora e apresentador da Rádio CBN; além de um representante de instituição habitacional e Geraldo Lacerdine, artista, curador da exposição e fundador da galeria.
A proposta é colocar em discussão uma das contradições presentes nas grandes cidades: enquanto a expansão imobiliária transforma paisagens e movimenta o mercado, milhares de pessoas ainda enfrentam dificuldades para conquistar um lugar digno para morar.
Mais do que discutir o desenvolvimento urbano, o encontro pretende ampliar o debate sobre inclusão social, desigualdade e responsabilidade coletiva diante da falta de moradia. A iniciativa também busca aproximar o público de uma realidade que vai além dos números do déficit habitacional, trazendo para o centro da discussão as histórias e a dignidade de quem vive nas ruas.
Exposição propõe um novo olhar sobre a população em situação de rua
A exposição reúne mais de 100 fotografias, textos, instalações e vídeos, além de aproximadamente 150 prêmios e reconhecimentos recebidos pelo padre Júlio Lancellotti ao longo de seus cerca de 40 anos de dedicação às pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Com registros dos fotógrafos Daniel Camargo Kfouri, Tr3ze, Victor Ângelo Caldini e Fernando Jensen, a exposição apresenta diferentes momentos da atuação do sacerdote e da Pastoral do Povo da Rua.
O conceito da mostra parte de uma provocação: aprender a olhar novamente para pessoas que, muitas vezes, são reduzidas à condição de pobreza ou invisibilizadas no cotidiano das cidades.
Segundo o curador Geraldo Lacerdine, a exposição nasceu da necessidade de questionar a maneira apressada e superficial com que a sociedade enxerga a população em situação de rua. “Precisamos aprender novamente a olhar: não apenas ver a vulnerabilidade, mas reconhecer histórias, vínculos, afetos, direitos e subjetividades”, explica.
Para ele, as obras procuram transformar a pessoa em situação de rua de objeto de observação em sujeito de sua própria história. A proposta, ressalta, é estimular um olhar mais atento e responsável, sem romantizar a pobreza ou reduzir essas pessoas às suas necessidades.
Pessoas em situação de rua visitam exposição e se reconhecem nas fotografias
Um dos momentos mais significativos da programação tem sido a participação de pessoas em situação de rua nas visitas guiadas à galeria. A iniciativa busca inverter a lógica da exclusão: em vez de serem apenas retratadas nas fotografias, elas são convidadas a ocupar o espaço cultural, conhecer as obras e participar ativamente da experiência.
Os encontros proporcionaram momentos de emoção, especialmente quando os visitantes se reconheceram nas imagens expostas. Foi o caso de Edson Rodrigues de Brito, conhecido como Bahia, que encontrou na mostra uma fotografia sua.
Para Geraldo Lacerdine, receber essas pessoas como protagonistas é uma das dimensões mais importantes do projeto. “Essa presença rompe uma barreira simbólica: elas não estão ali apenas representadas nas obras, mas ocupam a galeria, circulam por ela e participam da experiência cultural como protagonistas”, afirma o curador.
Ele destaca ainda que a iniciativa reforça a compreensão de que arte e cultura são direitos de todos, e não privilégios destinados a determinados grupos sociais.
Embora não substitua políticas públicas, a arte pode contribuir para mudar a maneira como a sociedade compreende as desigualdades, acredita Lacerdine. Na avaliação do curador, exposições como essa ajudam a criar espaços de encontro e escuta, aproximando pessoas de diferentes realidades e dando visibilidade a histórias que normalmente permanecem à margem.
“Uma galeria pode criar um espaço de encontro, escuta e reflexão, aproximando públicos diferentes e dando visibilidade a histórias que normalmente permanecem à margem”, afirma.
Ele acrescenta que, ao homenagear padre Júlio Lancellotti, a exposição reafirma a necessidade de compromisso, presença e responsabilidade coletiva.
Para o padre Júlio Lancellotti, uma das questões que chama atenção é que é negada a subjetividade dessas pessoas, como se elas não tivessem também sentimentos, contradições e dificuldades. “Acabam sendo largadas de uma maneira simplista, como vagabundos, marginais, drogados. Isso é uma forma bastante discriminatória que não leva em conta as possibilidades que essas pessoas têm”, afirma padre Júlio.
Sobre a presença da população em situação de rua na galeria, padre Júlio considera que a experiência tem um significado especial, sobretudo para os próprios visitantes. “Eles virem visitar a exposição é de um significado imenso, sobretudo para eles mesmos”, destaca.
O sacerdote também chama atenção para a dificuldade de as estruturas políticas e econômicas oferecerem respostas efetivas à questão social. Para ele, o enfrentamento do problema passa necessariamente pela redução das desigualdades. “O principal é diminuir as desigualdades ou eliminá-las. Mas isso é um processo histórico difícil”, avalia. Padre Júlio também manifesta preocupação com o fortalecimento de discursos e ideologias que desprezam os pobres e a população em situação de rua.
Programação inclui também visitas guiadas
Além da roda de conversa do dia 5 de novembro, a exposição terá novas visitas guiadas abertas ao público nos sábados, dias 7 e 14 de novembro, às 16h.
O encerramento oficial está marcado para 18 de novembro, às 19h, com um sarau especial de música e poesia.
Toda a verba arrecadada com a venda das fotografias está sendo destinada à Pastoral do Povo da Rua. A mostra conta com o apoio da Lacerdine Galeria, Eletromídia, Metrocasa Construtora e Habita Administração de Condomínios, além da participação de pessoas próximas à missão do sacerdote, entre elas Marcio Rachkorsky.
Programação:
- 5 de novembro, quinta-feira, às 19h: roda de conversa “A expansão imobiliária e a população sem casa?”.
- 7 e 14 de novembro, sábados, às 16h: visitas guiadas abertas ao público.
- 18 de novembro, quarta-feira, às 19h: encerramento com sarau especial de música e poesia.
Serviço
Exposição: A Alfabetização do Olhar – um ato de amor e responsabilidade
Período: até 18 de novembro de 2026
Horário de funcionamento: de segunda a sábado, das 10h às 18h
Local: Lacerdine Galeria de Arte
Endereço: Avenida Angélica, 2578 – Higienópolis, São Paulo (SP)
Entrada: gratuita
Instagram: @lacerdine
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