‘Entre Espelhos e Memórias’: Telma Brites leva à Bienal uma literatura sobre identidade e o tempo
Escritora baiana radicada na Alemanha lança novo romance psicológico e celebra uma década da Trilogia Gaia com edição especial que reúne os três livros em um único volume
Há perguntas que não envelhecem. Quem somos? O que nos define? Até que ponto a imagem que os outros fazem de nós interfere naquilo que acreditamos ser? E, quando o tempo modifica nosso rosto, nosso corpo e nossa trajetória, será que afeta na pessoa que existe por trás do espelho?
São algumas dessas inquietações que atravessam a literatura da escritora baiana Telma Brites, que aos 63 anos retorna ao Brasil para um momento particularmente simbólico de sua trajetória. Radicada na Alemanha há quase três décadas, a autora participa da Bienal do Livro de São Paulo, de 4 a 13 de setembro, onde apresenta seu novo romance, ‘Entre Espelhos e Memórias’, e, também, comemora os 10 anos de sua Trilogia Gaia com uma edição especial que reúne os três volumes em um único livro de capa dura, ‘Gaia – A Última Descendente’. As duas obras são publicadas pela Editora Coerência.
Na Bienal, Telma terá duas sessões oficiais de autógrafos: no dia 5 de setembro, às 10h, e no dia 10 de setembro, às 15h. Durante o evento, também participará de encontros e conversas com leitores e permanecerá disponível para autógrafos em outros momentos.
A presença de Telma na Bienal representa também o encontro de duas fases de uma mesma escritora. De um lado, a autora de fantasia, aventura e mitologia que há 10 anos apresentou aos leitores a saga de Gaia. De outro, uma escritora mais madura, interessada nas zonas de incerteza da existência humana e nas perguntas para as quais nem sempre há respostas definitivas.
“Dez anos de vida mudam uma pessoa e, naturalmente, mudam também uma escritora”, afirma Telma. “Hoje eu tenho outra relação com a escrita, talvez mais madura, mais consciente. Aprendi muito escrevendo, publicando, errando, revendo textos e começando outros projetos.”
Apesar das transformações, há algo que permanece. “Tem uma coisa naquela Telma que começou Gaia que continua exatamente igual: a vontade de contar histórias. E talvez também uma certa teimosia em acreditar nelas”, brinca.
Uma mulher que acorda sem saber quem é
Em ‘Entre Espelhos e Memórias’, Telma leva o leitor para uma história marcada pelo mistério. A protagonista, Telúria, uma mulher de meia-idade, desperta em um hospital de Berlim, na Alemanha, depois de sofrer um grave acidente. O problema é que ela não sabe quem é e precisa reconstruir a própria existência. O que parecia ser apenas uma tentativa de recuperar lembranças se transforma, porém, em uma investigação muito mais profunda sobre identidade.
A situação se torna ainda mais intrigante quando um antigo espelho passa a revelar cenas misteriosas envolvendo Grace e outros personagens. A partir daí, o romance transita por uma região em que memória, sonho, realidade e consciência se misturam.
Para Telma, sua própria experiência de viver longe do país onde nasceu acabou dialogando com a trajetória de Telúria, mesmo que essa relação não tenha sido planejada conscientemente durante a escrita. “Eu saí do Brasil há muitos anos, vivi na Guiana Francesa, depois na França e finalmente vim para a Alemanha. Quando você vive tanto tempo fora do país onde nasceu, a questão da identidade acaba se tornando muito complexa. Você não deixa de ser quem era, mas também já não é exatamente a mesma pessoa”, explica.
A experiência migratória, segundo ela, envolve sucessivas reconstruções. Uma nova língua, novos códigos culturais, novas formas de relacionamento e maneiras diferentes de enxergar o mundo passam a fazer parte da pessoa sem necessariamente apagar suas origens. “Talvez por isso eu me interesse tanto pela pergunta ‘quem somos?’. Não como uma coisa fixa, mas como algo que vamos construindo e reconstruindo ao longo da vida.”
Cobrança social sobre aparência feminina
No livro, um espelho mostra uma imagem, mas não necessariamente revela quem está diante dele. É justamente nessa distância entre aparência e identidade que Telma encontra uma das principais forças do romance. “O espelho é muito interessante porque ele nos mostra uma imagem, mas essa imagem não consegue mostrar tudo aquilo que somos. Ele mostra as marcas do tempo, naturalmente, mas não mostra a nossa história, os nossos desejos, a maneira como nos sentimos por dentro”, observa.
No caso das mulheres, essa questão ganha ainda mais peso, na avaliação da escritora. Existe, segundo ela, uma cobrança social particularmente forte sobre a aparência feminina, que pode se tornar mais evidente com o passar dos anos. “Como se, depois de determinada idade, algumas coisas já não nos fossem mais permitidas: determinados comportamentos, desejos, formas de se vestir, de amar, de viver.”
No romance, essa contradição aparece de maneira bastante peculiar. Telúria olha para o espelho e vê uma jovem de 20 anos. “Para mim, o espelho está muito ligado a essa distância que às vezes existe entre a idade que aparece no nosso rosto e a idade que sentimos dentro de nós”, resume Telma.
Mas a autora faz questão de esclarecer que não pretendia escrever um livro “sobre etarismo”. O tema está presente, mas não domina a narrativa. “Eu acho importante porque o etarismo está muito presente na nossa sociedade, principalmente quando se trata da mulher, mas muitas vezes ele aparece de uma forma tão naturalizada que a gente nem percebe. Eu não queria escrever um livro sobre etarismo, mas queria que essa questão estivesse ali, acompanhando a história.”
Para a autora, o leitor precisa primeiro entrar no universo de Telúria, acompanhar suas dúvidas, seus encontros, o espelho, o diário e a fronteira pouco nítida entre memória, sonho e projeção. As questões relacionadas à idade surgem naturalmente dentro desse percurso. “Eu acho que a literatura perde um pouco da sua força quando tenta dizer ao leitor exatamente o que ele deve pensar. Eu prefiro deixar espaços. Talvez por isso a ambiguidade seja tão importante nesse livro.”
O resultado é um romance de 304 páginas que combina elementos da ficção literária e do romance psicológico, conduzindo o leitor por uma história em que as respostas parecem sempre acompanhadas de novas dúvidas.
Telma e suas obras ‘Gaia’
Foi em 2016 que a escritora publicou ‘Gaia – A Roda da Vida’, primeiro volume de uma trilogia que posteriormente ganhou os livros ‘Gaia – O Templo Esquecido’ e ‘Gaia – A Cidade da Luz’. A saga, que também foi publicada no Brasil, na Alemanha e em Angola, combina fantasia, aventura e mitologia grega em uma narrativa protagonizada por uma jovem envolvida em uma antiga profecia relacionada aos descendentes de Poseidon.
Agora, uma década depois, os três livros voltam a se encontrar em ‘Gaia – A Última Descendente’, edição comemorativa de 536 páginas e capa dura. A reunião tem um significado especial porque, na verdade, essa era a concepção original de Telma. “Gaia nasceu como uma história única, mas acabou sendo publicada em três volumes. Poder reuni-los agora, dez anos depois, em um único livro, como eu tinha imaginado no início, tem um significado muito especial para mim. É como fechar um círculo.”
Da Bahia para o mundo — e de volta para casa
Natural de Cafarnaum, na Bahia, e criada entre o interior baiano e Salvador, a escritora formou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com especialização em Antropologia Médica. Desde 2001, vive na Alemanha. Antes de se estabelecer no país, passou também pela Guiana Francesa e pela França. A experiência de atravessar fronteiras, aprender novas línguas e viver em diferentes culturas acabou se tornando parte importante de sua maneira de observar o mundo.
Quase três décadas depois de deixar o Brasil, voltar para apresentar seus livros ganha, portanto, uma dimensão que vai além da agenda literária. Depois da Bienal, a escritora segue para Salvador, onde fará o lançamento de seus livros dia 18 de setembro, na Livraria Escariz, no Shopping Barra.
E, na sequência, Telma volta ainda mais para perto de suas origens. Nos dias 25 e 26 de setembro, ela estará em Cafarnaum, sua cidade natal, como convidada especial da Feira do Livro do município, onde será homenageada.
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