Tipos de terapia: entenda as diferenças entre as abordagens

Com diferentes métodos e perspectivas, as abordagens psicoterapêuticas podem atender demandas distintas
01/09/2026 17:37
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Créditos: istock/Jacob Wackerhausen

 

Mais de 30% foi o aumento registrado na procura por atendimentos psicológicos no Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos três anos, segundo dados do Ministério da Saúde. Com a maior busca por cuidado em saúde mental, também cresce o contato do público com diferentes tipos de terapia. Embora tenham métodos e formas distintas de compreender o sofrimento psíquico, não existe uma abordagem universalmente melhor. A escolha depende das necessidades de cada pessoa e da relação construída com o profissional.

 

O que é psicoterapia e como ela funciona

 

A psicoterapia é um processo conduzido por um profissional habilitado, baseado na conversa e em diferentes métodos para compreender experiências, pensamentos, emoções e comportamentos. Não existe uma única forma de conduzir as sessões, justamente porque as abordagens partem de teorias diferentes sobre o funcionamento psicológico.

 

A escolha da linha pode levar em conta a questão apresentada pelo paciente, seus objetivos e a forma como ele se adapta ao processo. Para Thaise Löhr Tacla, psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em entrevista à BBC, não há uma abordagem que seja superior às demais.

 

Na prática, isso significa que duas pessoas com uma queixa semelhante podem encontrar caminhos diferentes na psicoterapia. Enquanto algumas abordagens trabalham mais diretamente pensamentos e comportamentos, outras dão maior atenção às experiências subjetivas, às relações ou aos processos inconscientes.

 

A relação entre paciente e terapeuta também interfere no processo. Bartholomeu de Aguiar Vieira, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em entrevista à BBC, orienta sobre a importância de perceber, nos primeiros contatos, se existe escuta e um vínculo que permita desenvolver a relação terapêutica.

 

Por isso, conhecer a formação do profissional e perguntar qual abordagem ele utiliza pode ajudar antes de iniciar o acompanhamento. A experiência das primeiras sessões também pode mostrar se aquela forma de trabalho faz sentido para a pessoa.

 

TCC: foco em pensamentos e comportamentos

 

A Terapia Cognitivo-Comportamental parte da relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. A proposta é identificar padrões que podem estar associados ao sofrimento e trabalhar maneiras diferentes de interpretá-los e reagir a determinadas situações.

 

Essa abordagem utiliza técnicas cognitivas e comportamentais para identificar padrões de pensamento considerados disfuncionais e desenvolver formas mais adaptativas de lidar com eles. A abordagem costuma ter uma estrutura mais organizada e objetivos definidos ao longo do tratamento.

 

Outra característica é que o processo pode envolver atividades e reflexões entre as sessões, dependendo do planejamento terapêutico. A ideia é que o paciente consiga observar no cotidiano os padrões discutidos durante o atendimento.

 

Um exemplo pode ser uma pessoa que interpreta repetidamente determinada situação de maneira negativa e, a partir disso, desenvolve respostas de ansiedade ou evita determinadas atividades. O trabalho terapêutico pode envolver a identificação desses pensamentos e a observação de como eles influenciam o comportamento.

 

A TCC é utilizada em diferentes demandas, incluindo ansiedade, depressão e fobias. Isso não significa que ela seja indicada automaticamente para qualquer pessoa com essas condições, já que cabe ao profissional responsável pelo atendimento realizar uma avaliação.

 

Gestalt-terapia e abordagens humanistas

 

A Gestalt-terapia faz parte das abordagens humanistas e dá atenção especial à experiência presente. O chamado "aqui e agora" é um dos conceitos associados à linha, que busca ampliar a percepção do indivíduo sobre seus sentimentos, pensamentos, relações e escolhas.

 

A abordagem foi criada por Fritz Perls nas décadas de 1940 e 1950 e valoriza a consciência, a percepção e a responsabilidade pelas próprias escolhas. Pode ser utilizada tanto em atendimentos individuais quanto em grupos.

 

Já as abordagens humanistas, de maneira mais ampla, colocam no centro a experiência da pessoa e seu potencial de desenvolvimento. A corrente associada a Carl Rogers, por exemplo, valoriza aspectos como autonomia, crescimento pessoal e compreensão do indivíduo.

 

A fenomenologia também parte da experiência subjetiva. Em vez de buscar apenas uma explicação externa para determinado comportamento, procura compreender como aquela pessoa vivencia uma situação e atribui significado ao que acontece.

 

Essas linhas têm em comum uma atenção maior à maneira como o indivíduo percebe a própria experiência. Isso pode fazer com que a dinâmica das sessões seja diferente daquela encontrada em abordagens mais estruturadas.

 

Psicanálise, sistêmica e outras linhas praticadas no Brasil

 

A psicanálise tem como uma de suas principais referências Sigmund Freud e trabalha com conceitos como inconsciente, desejos, conflitos e experiências que participam da formação da vida psíquica. Diferentemente de abordagens mais focadas em objetivos específicos e de curto prazo, o processo psicanalítico pode se desenvolver por períodos mais longos.

 

A psicologia analítica, desenvolvida por Carl Gustav Jung, também investiga processos inconscientes, mas acrescenta conceitos próprios, como arquétipos, inconsciente coletivo e individuação. Já o psicodrama utiliza dramatizações e encenações para explorar experiências e relações.

 

Outra possibilidade é a abordagem sistêmica, que observa o indivíduo a partir de suas relações e dos sistemas dos quais participa, como família, casal ou outros grupos. A atenção não fica restrita ao comportamento individual, mas considera as interações que podem influenciar determinada questão.

 

Diante dessa diversidade, a escolha da abordagem não precisa ser tratada como uma decisão definitiva antes mesmo do primeiro atendimento. O contato com o profissional permite entender como as sessões serão conduzidas e quais objetivos podem ser trabalhados.

 

Independentemente da abordagem escolhida, vale lembrar que a terapia online também é uma modalidade regulamentada no Brasil, o que amplia o acesso a diferentes linhas de tratamento para quem tem dificuldade de deslocamento ou mora em cidades menores. A prestação de serviços psicológicos por meios digitais é regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia.

 

Conhecer os diferentes tipos de terapia pode ajudar a entender que a psicoterapia não segue um único modelo. Cada abordagem parte de conceitos próprios, utiliza estratégias diferentes e pode se adequar a determinadas demandas, mas a escolha não precisa ser feita de forma isolada pelo paciente.

 

Como explica a psicóloga Thaise Löhr Tacla, "não existe uma abordagem melhor que a outra e, sim, maneiras de entender o indivíduo". O vínculo estabelecido durante os primeiros encontros também pode ajudar a avaliar se aquela forma de trabalho faz sentido para a pessoa.

 

Por isso, o contato inicial com o profissional permite conhecer sua forma de atuação e compreender como o processo pode ser conduzido. Quando o sofrimento persiste e interfere na rotina, procurar atendimento com um profissional habilitado é uma forma de iniciar essa avaliação com segurança.


 

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