Do K-pop à novela coreana: por que o brasileiro está trocando a Globo pelas legendas

30/07/2026 14:54
noticia Do K-pop à novela coreana: por que o brasileiro está trocando a Globo pelas legendas
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Minha sogra assiste dorama todo santo dia às nove da noite. Trocou a novela das nove sem aviso prévio há uns dois anos e, quando pergunto o motivo, a resposta é sempre a mesma: "lá tem final". Simples assim. E é engraçado como essa frase curta explica boa parte do fenômeno que vem tomando conta da sala de quem nunca imaginou trocar Manoel Nunes por Kim Soo-hyun.

O termo dorama vem do inglês "drama" pronunciado à moda japonesa, e hoje serve de guarda-chuva pra qualquer série de ficção vinda da Coreia do Sul, China ou Japão. No Brasil, o público que começou consumindo K-pop, sobretudo depois do estouro de grupos como BTS e Blackpink, foi atrás da trilha sonora e acabou ficando pelas histórias. E as histórias, aparentemente, prenderam.

Não é só minha sogra, aliás. Tenho parado pra reparar em coisas assim há um tempo, e o padrão se repete: cunhada que assiste no celular escondido no trabalho, colega que só fala de série coreana no grupo da família, um vizinho de meia-idade que jurava odiar "coisa de legenda" e hoje maratona três episódios por noite. Não é um público pequeno e nichado. É gente de todo tipo, de toda idade, encontrando alguma coisa que a produção nacional parou de entregar há um tempo.

A comparação inevitável com a novela brasileira

Todo mundo que já recomendou um dorama pra alguém acostumado só com novela brasileira ouve a mesma pergunta: "mas quantos capítulos tem?" A resposta costuma surpreender. Enquanto uma novela nacional se estende por cento e oitenta capítulos, um dorama médio fecha a história em dezesseis. Tem uns que passam disso, mas a regra é: começa, desenvolve, termina. Sem final arrastado, sem novela sendo esticada porque o público pediu, sem mocinha voltando dos mortos pela terceira vez.

Essa objetividade agrada muito quem trabalha o dia inteiro e não tem paciência pra acompanhar trama por meses a fio. Dá pra maratonar um dorama inteiro num fim de semana chuvoso e sair satisfeito, com começo, meio e fim redondos. Pra quem cresceu com novela, isso é quase revolucionário.

Atores que viram nome de casa

Tem uma coisa que aconteceu comigo e acho que acontece com todo mundo que entra nesse mundo: em algum momento, um nome estranho começa a soar familiar. Song Joong-ki, Park Seo-joon, Kim Tae-ri. No começo parece impossível decorar, depois vira automático, do mesmo jeito que a gente decora nome de ator de novela sem nem perceber que decorou.

Esses atores hoje enchem capa de revista de fofoca e viram assunto de coluna social por aqui, coisa que há uns dez anos seria impensável pra um artista asiático fora do circuito de cinema autoral. Casamento, affair, término, todo o repertório de celebridade que a gente já conhece da Globo, só que com nome difícil de pronunciar. E o público comprou.

Comida, moda e um tanto de curiosidade cultural

Um efeito colateral curioso é o quanto dorama vira porta de entrada pra outras coisas. Depois de ver um punhado de séries coreanas, é comum começar a procurar receita de tteokbokki, pesquisar sobre etiqueta em reverência a mais velho, se interessar por marca de skincare coreano que aparece em cena. Tem gente que aprendeu a contar até dez em coreano só de tanto repetir junto com a legenda.

Isso tudo alimenta uma espécie de curiosidade que vai muito além da tela. E aí que entram os portais e comunidades especializadas em cobrir esse universo por aqui, porque nem sempre é fácil saber por onde começar, qual gênero combina com o seu gosto, o que está saindo essa semana. Sites como o melhores doramas nasceram justamente pra isso: organizar recomendação, trazer ficha técnica, avisar sobre lançamento, sem que a pessoa precise ficar garimpando fórum estrangeiro pra entender do que se trata cada título.

Gênero pra todo gosto, não é só romance

Uma confusão comum é achar que dorama é só romance açucarado com mocinha inocente e mocinho rico e carrancudo. Existe bastante disso, sem dúvida, mas o catálogo vai muito além. Tem suspense policial pesado, tem comédia de humor bem seco, tem drama histórico de época com produção de cinema, tem até terror psicológico que não deve nada pra qualquer filme de sessão da meia-noite.

Essa variedade é um dos motivos pelos quais o público que entra achando que vai gostar só de romance acaba descobrindo um gênero completamente diferente do que esperava. Conheço gente que jurava odiar suspense e virou fã roxa depois de assistir uma única série sobre investigação policial ambientada numa cidadezinha do interior coreano.

Tem também um espaço grande pra drama de época, com figurino de corte real, disputa de sucessão e intriga palaciana que lembra bastante minissérie histórica que a própria TV brasileira já produziu décadas atrás. E tem o lado mais recente, de série curta baseada em webtoon, aqueles quadrinhos digitais que se leem no celular rolando a tela pra baixo. Passa rápido do papel pra tela e chega já com legião de fã que leu a versão original antes mesmo do anúncio da adaptação.

O streaming fez o trabalho pesado

Nada disso teria pegado do jeito que pegou sem Netflix, Prime Video e Viki brigando por catálogo asiático nos últimos anos. Antes, quem queria assistir dorama dependia de legenda feita por fã, em site que às vezes saía do ar sem aviso. Hoje o lançamento sai com legenda oficial em português no mesmo dia da estreia coreana, e isso muda tudo em termos de alcance.

O algoritmo das plataformas também ajuda: uma vez que a pessoa assiste um título e gosta, o próprio serviço empurra o próximo, e o próximo, até a pessoa perceber que virou consumidora regular sem ter planejado nada disso.

Um hábito que veio pra ficar

Minha sogra, pra fechar a história, hoje conhece mais atriz coreana do que eu conheço ator de novela. Discute teoria de final com o grupo de amigas do bairro, manda áudio de quarenta minutos comentando episódio, e outro dia perguntou se eu sabia onde acompanhar notícia sobre lançamento novo. Mandei ela procurar o próprio melhores doramas, e ela virou usuária fiel em uma semana.

Não sei se isso é uma moda passageira ou se vai virar hábito permanente de consumo de entretenimento no Brasil, mas pelo jeito que a coisa cresceu nos últimos anos, aposto que ainda vamos ver muita gente trocando o horário nobre por uma boa história com legenda.

 

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