Ganhar bem não significa construir riqueza
Milhares de brasileiros aumentam a renda ao longo da vida, mas chegam à aposentadoria sem patrimônio suficiente para manter o padrão de vida conquistado
Ao longo de mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro, especialmente no atendimento a clientes de alta renda, uma constatação se repete com frequência: renda elevada nem sempre se transforma em patrimônio consistente. Médicos, executivos, empresários e profissionais liberais podem construir carreiras bem sucedidas, alcançar altos rendimentos e manter um padrão de vida confortável, mas ainda assim chegar à maturidade financeira com reservas insuficientes para sustentar o mesmo nível de segurança no futuro.
Essa diferença é central para qualquer discussão séria sobre planejamento financeiro. Renda é fluxo. Patrimônio é estoque. A renda representa aquilo que entra todos os meses. O patrimônio representa aquilo que permanece, é acumulado, protegido e convertido em segurança ao longo do tempo. Quando essa distinção não é compreendida, o aumento dos ganhos pode gerar uma sensação de estabilidade que nem sempre corresponde à realidade financeira da família.
É comum acreditar que ganhar mais resolverá, naturalmente, as questões financeiras futuras. Em tese, uma renda maior deveria ampliar a capacidade de poupar, investir e se preparar para a aposentadoria. Na prática, porém, o crescimento da renda costuma vir acompanhado pelo crescimento das despesas. O imóvel fica maior, o carro muda de categoria, as viagens se tornam mais frequentes e os compromissos familiares aumentam. Essas escolhas podem ser legítimas, mas se todo aumento de renda for absorvido pelo aumento do padrão de vida, a construção patrimonial fica comprometida.
O problema não está no consumo em si, mas na ausência de proporção entre consumo presente e segurança futura. O Banco Central, em seu Caderno de Educação Financeira, trata planejamento, consumo, poupança, investimento, prevenção de riscos e proteção patrimonial como partes de uma mesma gestão financeira, não como decisões isoladas (Banco Central do Brasil. Caderno de Educação Financeira – Gestão de Finanças Pessoais. Brasília: Banco Central do Brasil, edição vigente, 2026).
Os dados mostram que esse desafio é amplo. Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, realizada pela ANBIMA em parceria com o Datafolha, 36% da população brasileira declarou investir em produtos financeiros em 2025, o equivalente a 60,6 milhões de pessoas. O mesmo estudo aponta que 31% da população não possui reserva financeira para imprevistos e que, entre os que têm alguma reserva, 43% consumiriam todo o valor em até seis meses. (ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) e Datafolha. Raio X do Investidor Brasileiro – 9ª edição. São Paulo: ANBIMA, 2026).
Esses números ajudam a explicar por que ganhar bem não significa, necessariamente, estar financeiramente protegido. Em muitas famílias de renda alta, há patrimônio aparente, mas pouca liquidez. Em outras, há concentração excessiva em imóveis, baixa diversificação de investimentos, previdência mal dimensionada ou ausência de uma estratégia clara para transformar renda ativa em renda futura.
A construção de patrimônio exige método. Isso inclui controle do fluxo de caixa, definição de objetivos, formação de reserva de emergência, diversificação, escolha adequada de produtos financeiros, revisão periódica da carteira e planejamento sucessório quando necessário. Também exige uma decisão difícil: preservar parte da renda antes que ela seja incorporada ao padrão de vida.
A longevidade torna esse tema ainda mais relevante. De acordo com as Tábuas de Mortalidade 2024 do IBGE, a expectativa de vida ao nascer no Brasil chegou a 76,6 anos. Para quem alcança os 60 anos, a expectativa média adicional é de 22,6 anos, sendo 20,8 anos para homens e 24,2 anos para mulheres. (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tábuas Completas de Mortalidade para o Brasil – 2024: Breve Análise da Evolução da Mortalidade no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, divulgadas em 2025.). Isso significa que a aposentadoria pode representar duas ou até três décadas de vida que precisam ser financiadas com menor dependência da renda do trabalho.
Esse horizonte muda a forma como a aposentadoria deve ser vista. Não se trata apenas de parar de trabalhar, mas de manter autonomia financeira em uma fase da vida em que despesas com saúde, moradia, apoio familiar e cuidados pessoais podem ganhar peso. Quanto mais tarde esse planejamento começa, menor tende a ser o efeito do tempo sobre os investimentos e maior passa a ser o esforço necessário para compensar anos sem acumulação.
Uma pesquisa da Serasa, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box, mostrou que 64% dos aposentados consideram o valor recebido insuficiente para manter o padrão de vida. O levantamento também apontou que 6 em cada 10 pessoas prestes a se aposentar só começaram a se organizar financeiramente nos últimos cinco anos, e que 53% dos aposentados continuam trabalhando para complementar a renda (Serasa Experian e Instituto Opinion Box. Pesquisa Nacional sobre Planejamento Financeiro e Aposentadoria. São Paulo, 2025.).
A educação financeira também tem papel relevante nesse processo. No Raio X do Investidor Brasileiro, apenas 21% da população afirmou já ter participado de algum tipo de aula, curso, treinamento ou palestra sobre educação financeira. Entre investidores, esse percentual sobe para 33%, e a proporção de pessoas com perfil div
ersificado é maior entre quem teve acesso a esse tipo de formação (ANBIMA Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) e Datafolha. Raio X do Investidor Brasileiro – 9ª edição. São Paulo: ANBIMA, 2026.Patrimônio, portanto, não deve ser confundido com fortuna. Patrimônio é a reserva que oferece tranquilidade diante de imprevistos. É a carteira de investimentos que pode gerar renda complementar. É a previdência construída com regularidade. É a estrutura financeira que permite tomar decisões sem depender exclusivamente do próximo salário ou da manutenção indefinida da atividade profissional.
No fim, a verdadeira riqueza não está apenas no quanto se ganha, mas no quanto se consegue preservar, investir e transformar em segurança. Ganhar bem pode melhorar a vida no presente. Mas é a construção de patrimônio que protege o futuro.
Sobre
Sabrina Herrschaft é administradora, especialista em planejamento financeiro e previdência privada e certificada CFP®, com mais de duas décadas de atuação no mercado financeiro e sólida experiência no segmento de alta renda. Ao longo da carreira em grandes instituições financeiras, desenvolveu expertise em planejamento patrimonial, gestão de investimentos e construção de estratégias voltadas à proteção financeira e visão de longo prazo. Seu trabalho reúne análise técnica e educação financeira aplicada à vida real, com foco em organização patrimonial, previdência e tomada de decisão financeira consciente.
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