Igrejas priorizam o projeto acústico em novas obras e reformas
Templos brasileiros adotam padrões profissionais para garantir conforto auditivo, controle de ruído e melhora da experiência para os fiéis
Em templos lotados, aumentar o volume não garante que a mensagem seja compreendida. Na verdade, o que faz diferença é a clareza do som. Essa percepção tem sido fortalecida no país, o que tem refletido na busca por projetos acústicos para as igrejas.
“Templos, hoje, entendem que som não é decoração, é estrutura. Um forro para igrejas precisa obedecer requisitos técnicos de absorção e isolamento para que culto, música e pregação ocorram com qualidade”, explica o engenheiro especializado em acústica da Liberty Engenharia, Carlos Eduardo Bertachi.
A Igreja Pentecostal Deus é Amor reinaugurou sua sede em Porto Alegre em janeiro, após uma reforma iniciada dois anos antes. O novo espaço conta com quatro camadas de forro e painéis sintéticos aplicados nas paredes para reduzir ecos e impedir fuga de som para o exterior.
Em fevereiro, foi a vez de inaugurar uma nova sede em Fortaleza, construída para receber 1.100 pessoas. De acordo com as informações divulgadas pelo templo, o projeto envolveu especialistas em acústica desde os primeiros esboços, com cálculos que simulavam reverberação por frequência e inteligibilidade antes mesmo de pensar na fundação.
As obras da Igreja Pentecostal Deus é Amor são exemplos de um movimento dos templos nacionais de valorização do projeto acústico e segue a esteira do que é observado também fora do país.
Estudo detalha acústica de igrejas europeias
Um estudo publicado este ano cruzou dados de 83 igrejas europeias comparando arquitetura, geometria e comportamento acústico. A pesquisa concluiu que mesmo dentro de estilos similares, como gótico, neoclássico e moderno, as pequenas variações de design - altura, volume, tipo de cobertura - resultam em diferenças no desempenho sonoro.
Igrejas com pé-direito alto e abóbadas elaboradas não são apenas projetos arquitetônicos suntuosos e marcantes. Essas características são o que transformam o edifício em uma caixa de eco e reverberação onde fala e música perdem definição.
Em templos construídos sem cuidado acústico, problemas como “som abafado”, ecos, zonas de áudio fraco ou muito forte, reverberação prolongada e confusão sonora são comuns, mesmo com sistemas de som modernos.
Por outro lado, o uso de painéis acústicos, forros absorventes, revestimentos nas paredes e disposição estratégica de caixas de som pode transformar o espaço. A absorção suave de reflexões e o controle da reverberação aumentam a clareza da voz e a definição musical, sem comprometer a estética.
Sistema multicamadas permite isolamento acústico
As quatro camadas aplicadas no forro do templo gaúcho representam um sistema multicamadas que garante a melhora da absorção interna do som e o isolamento acústico.
Isso porque os materiais utilizados têm como finalidade melhorar o Coeficiente de Redução de Ruído (NRC), indicador que mostra o quanto o ambiente absorve o som e reduz ecos e reverberação, e as camadas adicionais reforçam a Classe de Transmissão de Som (STC/Rw), responsável por impedir que o áudio escape para o exterior.
Em templos religiosos, a preocupação com projetos acústicos é recente. Historicamente, as reformas priorizavam estética, iluminação e espaço útil, deixando o som para ajustes posteriores.
A mudança acompanha transformações culturais e também pressões práticas: fiéis exigem som com maior qualidade, sobretudo em transmissões virtuais; vizinhos reclamam de ruído externo; e os espaços precisam de soluções inteligentes para ambientes que comportam centenas e até milhares de pessoas.
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