Tecnologias facilitam diagnósticos ortopédicos, mas desigualdade de acesso é obstáculo

Pacientes do setor privado realizaram 13,13 vezes mais exames do que aqueles atendidos pela rede pública, mostra levantamento
11/12/2025 15:32
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O Brasil realizou mais de 101 milhões de exames de imagem em 2023, com a ressonância magnética figurando entre os cinco procedimentos mais frequentes do país, ao lado de raio-X, mamografia, ultrassonografia e tomografia computadorizada. Os dados constam no “Atlas da Radiologia no Brasil 2025”, elaborado pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), que aponta o exame como um dos mais requisitados para diagnósticos ortopédicos.

O país possui 3.459 equipamentos de ressonância magnética, segundo dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) com referência em dezembro de 2024. A taxa é de 17,03 máquinas por milhão de habitantes. Do total, 1.815 equipamentos (52,47%) operam na rede privada. Os outros 1.644 atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Os números demonstram disparidades no acesso. Usuários de planos de saúde realizaram 1.323 procedimentos para cada grupo de mil beneficiários. No SUS, foram 634,41 exames pela mesma base populacional. Pacientes do setor privado realizaram 13,13 vezes mais exames do que aqueles atendidos pela rede pública. Os dados do CBR são baseados em informações oficiais do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar.

Precisão sem radiação

A capacidade de produzir imagens de alta definição das estruturas internas do corpo ilustra para que serve a ressonância magnética em diagnósticos ortopédicos. Ela se destaca na análise de tecidos moles: músculos, tendões, ligamentos, cartilagens e discos intervertebrais. Por isso, é requisitado para identificar lesões ortopédicas complexas. Raio-X e tomografia computadorizada são mais indicadas para visualizar os ossos. 

A ressonância utiliza campo magnético e ondas de rádio para gerar imagens detalhadas. Médicos conseguem avaliar com precisão desde distensões musculares até rupturas de ligamentos, além de também detectar condições degenerativas, como hérnias de disco.

O Protocolo de Encaminhamento às Ofertas de Cuidados Integrados de Ortopedia, documento técnico do Ministério da Saúde publicado em 2025, estabelece quando solicitar a ressonância magnética. Para casos de cervicalgia, o exame é recomendado quando há déficit motor ou sensitivo com suspeita de compressão medular. Outras justificativas para o procedimento são radiculopatia progressiva e doenças inflamatórias.

Na avaliação de osteoartrite da coluna, a ressonância é indicada para investigar compressão neural associada a déficits motores ou sensitivos. O exame auxilia no diagnóstico de radiculopatia progressiva. Para patologias do joelho, ela permite avaliar sintomas de bloqueio articular por possíveis corpos livres, instabilidade ligamentar ou suspeita de edema ósseo.

Da sala de cirurgia ao pós-operatório

Por não usar radiação ionizante - diferentemente do raio-X e da tomografia computadorizada -, a ressonância magnética é um procedimento mais seguro para pacientes que precisam de exames frequentes: atletas, idosos e pessoas com doenças crônicas podem repetir o exame sem riscos associados à exposição cumulativa de radiação.

As imagens precisas das estruturas afetadas ainda permitem ao médico escolher a melhor abordagem operatória. No pós-operatório, o exame acompanha a recuperação do paciente, reduzindo o risco de complicações e melhorando os resultados.

Desafios no território nacional

O “Atlas da Radiologia no Brasil 2025” mostra que a disponibilidade de equipamentos é desigual. O país dispõe de 1,69 aparelhos de ressonância para cada 100 mil habitantes, considerando todo o sistema de saúde. A densidade de ressonâncias no serviço público mais do que dobrou entre 2014 e 2023: passou de 6,07 exames a cada mil pessoas para 13,80. O avanço é importante, mas insuficiente para equiparar o acesso ao setor privado.

A concentração de equipamentos varia por região. Ortopedistas no Rio de Janeiro e demais profissionais do Sudeste, Sul e Centro-Oeste contam com 2.632 máquinas, apresentando as maiores taxas: 23,26, 20,17 e 19,44 equipamentos por milhão de habitantes, respectivamente. As três regiões concentram 76% dos aparelhos do país. 

A densidade também varia. A Região Norte tem a menor disponibilidade do país. No Acre, há apenas 0,60 equipamentos de ressonância para cada 100 mil usuários do SUS. Já a densidade na rede privada do mesmo estado é de 35 aparelhos por 100 mil habitantes. 

O Programa Mais Acesso a Especialistas, instituído pela Portaria GM/MS nº 3.492 de abril de 2024, busca ampliar e qualificar o cuidado especializado. Isso inclui o acesso a exames de ressonância magnética por meio das Ofertas de Cuidados Integrados em Ortopedia.

A Portaria SAES/MS nº 2.723, publicada em janeiro de 2025, estabelece atributos complementares que exigem o exame para avaliação diagnóstica em ortopedia. As medidas entraram em vigor a partir de abril de 2025.

O programa prevê conjuntos de procedimentos que incluem consulta médica especializada, exames de imagem e retorno. O objetivo é reduzir a fragmentação do atendimento e garantir diagnósticos mais ágeis.

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