Formar investidores desde cedo pode ser caminho para evitar dívidas no futuro
O aumento do endividamento entre jovens brasileiros tem acendido um alerta sobre a forma como as novas gerações lidam com o dinheiro. Segundo dados do Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central, a parcela de jovens endividados dobrou em oito anos. De 2016 até 2024, passou de 13,7 milhões para 27,6 milhões, e a inadimplência desse grupo é maior do que a dos adultos e idosos, independentemente da renda. Outra pesquisa, da Datafolha, mostra que dois em cada três brasileiros têm algum tipo de dívida. Embora não seja possível afirmar que essas situações aconteçam por falta de educação financeira na infância, a ausência de orientação nesse período contribui para uma relação desorganizada com o dinheiro na vida adulta.
Então, como e quando começar? Kaê Macedo, consultor de investimentos da Unicred Coalizão, explica que a ideia de dar mesada a partir dos seis ou sete anos pode ser um começo para dar noções sobre gastos e controle, mas alerta que apenas isso não forma o entendimento do jovem. É preciso também ensinar a fazer escolhas com o dinheiro e entender as consequências dessas decisões. “A mesada é uma ferramenta prática e acessível para dar os primeiros passos nessa educação. Ao receber um valor periódico, a criança passa a lidar com escolhas, prioridades e limites, desenvolvendo noções importantes de organização financeira”, pontua.
Mas o desafio, alerta, vai além de ensinar a poupar. “É preciso criar uma mentalidade voltada para o futuro. O hábito de economizar, claro, é essencial e deve ser ensinado. Porém, com o tempo, é necessário desenvolver uma visão de longo prazo, apresentando os conceitos de risco, retorno e planejamento, exemplificando os benefícios de investir”, explica o consultor. Essa mudança de perspectiva contribui para formar adultos mais preparados para tomar decisões conscientes e sustentáveis.
Em instituições com o modelo cooperativista, como a Unicred Coalizão, em que o cooperado é sócio e participa mais ativamente da instituição, a lógica vai além da oferta de produtos como previdência e consórcios, e passa pela formação financeira ao longo do tempo. E o interessante é exatamente analisar algumas soluções que visam preparar as próximas gerações para uma relação mais equilibrada com o dinheiro. “Para filhos maiores de 18 anos, quando os pais fazem um investimento, o filho também passa a ser um cooperado independente e a ter uma matrícula própria. Já no caso de conta para menores de idade, ela é vinculada ao responsável, para que a criança ou adolescente seja introduzido ao sistema financeiro de forma assistida”, comenta Kaê, que complementa: “Mas, para mudar mentalidades, não basta apenas investir, é preciso envolver os filhos no processo de investimentos e ajudá-los a entender que o dinheiro pode crescer ao longo do tempo. Os pais devem permitir que as crianças participem das decisões. Isso inclui mostrar o saldo evoluindo, explicar o que é rendimento e criar objetivos que engajem. Tudo isso, junto, ajuda a transformar a relação com o dinheiro”.
Já para os pais preocupados “apenas” em construir um patrimônio para os filhos usufruírem no futuro, seja para educação, aposentadoria ou aquisição de bens no futuro, Macedo sugere alguns caminhos. “Guardadas as diferenças entre os perfis, de forma geral, a renda fixa com títulos públicos é sempre uma excelente opção, principalmente títulos atrelados à inflação ou à Selic. Não existe um tempo mínimo, mas nos juros compostos o tempo é uma variável exponencial, por isso, quanto mais tempo você tiver, melhor será o resultado”, diz.
Além disso, para quem fica na dúvida entre investir em produtos de curto prazo ou pensar em estratégias de décadas, é preciso separar as funções dentro da carteira. “Liquidez serve para proteção e flexibilidade. Longo prazo serve para crescimento. Misturar esses dois objetivos costuma levar a decisões ruins, especialmente em momentos de estresse. O ideal é manter uma reserva acessível para imprevistos e, ao mesmo tempo, direcionar parte dos recursos para investimentos com foco no longo prazo”, orienta.
Mas, atenção: para quem deseja organizar o futuro financeiro dos filhos, é preciso ficar de olho em alguns pontos. “O principal erro é tratar investimento como evento, e não como processo. É preciso, ainda, entender que quanto mais cedo começar, melhor; e que é essencial focar no comportamento de poupar e não em produtos de investimentos”, avalia. “De forma bastante objetiva, se você quiser começar hoje a preparar o seu filho para ser um investidor no futuro, três passos são fundamentais: estabelecer aportes recorrentes; utilizar instrumentos simples e compreensíveis; e incluir o filho no processo de decisão, ainda que de forma progressiva. No longo prazo, isso vai construir algo mais valioso do que patrimônio, que é a disciplina financeira”, conclui.
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