ENTRE METÁFORAS MOFADAS EM CORAÇÕES ABANDONADOS
Por Eriberto Henrique
Era 6h30 da manhã, quando ao escovar os dentes, escutei alguém gritar chingamentos na avenida. Recife despertava em mais uma quarta-feira. Antes mesmo do café, já parecia exausta, sonhando com os memes de “sextou” enquanto se preparava para repetir a rotina. Uma rotina que pulsava no ritmo do caos: crimes, assaltos e descasos sem fim. Repórteres espalhados tentando colher as minúcias do caos. Protestos, fumaça, Manassés vendendo seus brindes nos ônibus entre pregações improvisadas, enquanto a esperança tropeçava nas fezes de cachorro deixadas nas calçadas.
Nas redes sociais, os usuários curtiam, compartilhavam e discutiam. Sentados em um divã coletivo onde se mastiga as desgraças diárias. No Hospital da Restauração, mais uma perna amputada. A dor, o remorso e a indignação pairam sobre a cidade, que insiste em viver num looping de fobias, ilusões e mentiras, entre metáforas mofadas em corações abandonados.
O vizinho pegou o elevador, não levantou a cabeça, e se quer deu bom dia. Dane-se. Com essa falta de educação, com certeza o dia devia estar uma merda. Desceu no térreo e acendeu um cigarro. Duas tragadas, fumaça no ar, entrou num carro de aplicativo e desapareceu. Seguiu, como o Recife inteiro, para qualquer lugar. Fugindo ou fingindo, talvez. E como os passageiros do PE-15, que se espremiam escutando bregas, desejava apenas que o tempo passasse depressa. Pela incapacidade de apreciar, os ensinamentos do tempo.
Contato:
https://www.instagram.com/eribertodesigner/
ÚLTIMAS NOTÍCIAS UOL