FOGO E GELO: 1 Halley. Por Jeiane Costa*

14/11/2017 23:51
noticia FOGO E GELO: 1 Halley. Por Jeiane Costa*
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Na minha opinião, a vida é muito curta para perdermos tempo com bobagens. Isso inclui tempo dedicado à leitura, pesquisa, memorização de fatos do passado que não fazem a menor diferença para o nosso dia-a-dia. o importante é viver o agora, sem amarras ou paranoias.

Minha irmã fica louca da vida quando trago esses argumentos a ela, que por sua vez, sempre tem uma resposta na ponta da língua “sem esses fatos políticos e culturais do passado, não teríamos a nossa marca e identidade cultural que trazemos hoje. Toda essa riqueza histórica merece ser reconhecida, principalmente aos heróis de nossa história que renunciaram a vida por um ideal... blá blá blá blá”

Apesar de desenvolvidas no mesmo útero e termos nascidas juntas, somos muito diferentes. Opostas como fogo e gelo. Algumas pessoas curiosas me perguntam sobre a sensação de ter uma irmã gêmea. A resposta para essa pergunta (ela que não me ouça) é que é terrível ter uma cópia minha perambulando pela cidade, especialmente pelo fato de ela não seguir o mesmo estilo ou linha de pensamento que eu. Além do mais, o seu jeitinho “certinho de ser” sempre me leva a irritantes comparações de parentes e amigos de nossos pais.

Não é agradável ouvir comentários como: “a Helena é uma garota incrível. Você não deve se preocupar com a Halley... isso é só uma fase!”, “a Helena sem duvida alguma terá uma carreira brilhante, já a Halley, logo vai esquecer essa história de querer ser artista e vai ter uma profissão decente”, “a Helena apesar de tímida é tão amável, né? A Halley é tão... explosiva!”... blá blá blá blá

Argh!

Ao contrário do que todos pensam sobre mim, eu sou interessante. Tenho alma e sangue que pulsam em minhas veias também! Só que ao contrário da minha irmã-barbie eu transmito minha personalidade no meu jeito de falar, me portar e me vestir.

Eu sou uma das líderes de uma banda de rock. A “águia azul”. Talvez você nunca ouviu falar sobre minha banda, mas um dia ficaremos tão famosos que até minha irmã vai querer se passar por mim para sentir um pouco da minha fama.

Viajaremos o mundo inteiro levando o melhor de nossa música para jovens como meus amigos João, Edu, Mel e Raissa. Eles são o meu grupo. Às vezes temos nossos desentendimentos, mas nós somos os melhores. Juntos somos imbatíveis!

 

*      *      *     *

Hoje é sexta-feira além do final de semana anunciando, significa que é meu dia de folga do meu trabalho de meio turno na loja do tio Ferreira e dia de ensaio da banda...

Estou tocando com meus amigos em um show,  mas um som insistente que não faz parte do repertorio me diz que tudo não passa de um sonho... Trimmmm, Trriiiimmmmmm, Trrrriimmmmm....

- alô...- sussurro com a voz rouca de sono

- ALÔ? ACORDA HALLEY!

- humm...

- VOCÊ não vai ACREDITAR NO QUE ACONTECEU!! – pela voz aguda e animada deduzo ser a Mel – a vocalista principal do grupo

- o quê? – digo ainda de olhos fechados apoiando o aparelho sobre o rosto – você sabe que horas da madrugada são?

Ela abafa uma risadinha – são 10:45 sua PREGUIÇOSA E TEMOS POUCO TEMPO PARA OS PREPARATIVOS...

- que preparativos?

- consegui uma participação pra gente no duelo de bandas que vai acontecer no BOTEQUIM DA VELHA!!!

Pela primeira vez nessa manhã dou de cara com Paulo Ricardo me encarando em um dos meus postes colados caprichosamente na parede. Minha cabeça gira – conseguiu?

- SIMM!!! – ela berra no telefone eufórica me deixando quase surda – nos apresentaremos amanhã as 20 horas. Então vamos fazer nosso ultimo ensaio hoje depois da aula

- beleza! – falo meio a um bocejo

- todos do grupo já estão sabendo... e VOCÊ, vê se NÃO ATRASA!

- cala a boca!

Ela sorri desligando e eu volto para o ponto que eu parei.

 

*      *      *     *

Deparo-me com o relógio holandês de minha mãe e arregalo os olhos deixando escapar um silvo... Enfio tudo na minha bolsa e corro até o maradonna que sempre me espera na porta de casa. Sim... O nome do meu fusquinha azul piscina é esse. E não... Não foi eu que pintei o pobre dessa cor. Depois de anos de dura economia, comprei ele em uma loja de carros usados e sem duvida alguma ele foi o melhor presente da minha vida! Se não acreditas, imagine você aos dezoito anos com carteira de motorista e carro próprio?

Rá!

No estacionamento da escola, confiro o horário e me certifico que a primeira aula é matemática. Significa que vou ter aula com o gatíssimo Jed.

Ligo o carro e Avril Lavigne explode com “complicated”. Em seguida, sou surpreendida com a previsão do meu horóscopo na rádio que diz que vai acontecer coisas inusitadas na minha vida. Alguma coisa no zodíaco unido a vênus juntamente com Atenas anuncia que hoje parece ser o meu dia de sorte no amor, mas algo vai deixar minha vida literalmente de ponta-cabeça. Preciso me preparar por que vou enfrentar uma tempestade que virá do passado. Eu não preciso me preocupar por que tudo o que acontecer vai me ajudar na minha metamorfose.

Nunca acreditei nessas previsões mas confesso que gosto de ouvir por pura diversão. Acho gozado o fato de toda semana eu estar vivendo um grande amor ou estar fazendo uma mega viagem ou estar faturando nas finanças. Mas... Dessa vez eles pegaram pesado!

- que loucura! – digo sorrindo enquanto desligo o aparelho de som

Saio do carro e vejo que não há nada de anormal. Quero dizer, vejo Helena na porta da escola, o que significa que cheguei a tempo para a aula. Sinto um arrepio percorrer minha espinha quando nossos olhos se encontram. Essa previsão de horóscopo foi sinistra.

Sigo em frente e vejo pelo espaço de vidro que tem na porta que felizmente a aula ainda não começou. Ajusto a bolsa no ombro antes de passar pelo corredor de cadeiras e escolho a carteira de sempre: ultima fileira perto da janela, penúltima carteira. Tem uma vista maneira para o lado de fora.

Deixo escapar um suspiro enquanto jogo minha bolsa sobre a carteira e me sento deixando meus cabelos esconderem meu rosto. Meus amigos já estão em seus habituais lugares: Mel, à minha frente enquanto João e Edu se esparramam atrás de mim e eu tenho certeza que eles estão rindo de mim e isso me dá nos nervos. A Raissa é a única do grupo que estuda na outra sala – juntamente com minha irmã, claro - e a carteira ao meu lado é a única da sala que sempre fica vazia.

O professor Vieira chega e todos por alguma razão prendem a respiração por algum instante. Ele é baixinho e gorduchinho. Sempre usa camisas quadriculadas como as de festas juninas, arrematadas por gravatinha borboleta, o que o deixa parecido com um botijão de gás decorado.

Ele começa a aula. Sua voz é forte de modo que não conseguimos desviar a atenção. Então ele passa um trabalho e divide a turma em duplas.

Meu coração começa a martelar no peito por que eu esqueci de mencionar o fato que na próxima fileira, quem se senta é o alvo de minha paixão: Jed... espio em sua direção e percebo que no seu outro lado, a carteira está vazia.

Um fio de esperança escapole de mim e sinto minha testa úmida. Tum-tum.. Tum-tum... aimeudeus... será? Sinto meu coração explodir quando escuto o professor anunciar que seremos dupla para as próximas atividades desse semestre.

Rá! Eu vou fazer trabalhos com o Jed! O garoto mais gato da escola!

Ele é alto e esguio. Tem os cabelos pretos e arrepiados em todas as direções. Sua pele de tom quase pálida e sorriso com dentes quase perfeitos se contrastam com a cor dos olhos. Quando ele sorri, uma covinha aparece no canto de suas bochechas. Ele tem uma cicatriz no braço esquerdo o que me faz imaginar se ele se machucou quando criança durante alguma travessura.

Ele esboça um “oi” para mim e meu coração pula, dança, samba dentro do peito como resposta. Penso em dizer algo mas meu celular vibra no meu colo.

Mel me envia um SMS com um “tá podendo, hein?” e eu respondo com um “cala a boca”. Ela coloca uma carinha mostrando a língua e eu a belisco por debaixo da carteira. Ela estremece e sorrimos juntas. Felizmente o professor está tão concentrado em escrever o exercício na lousa que não percebe nada.

Aproximamos as carteiras o que me permite sentir o perfume dele. Tem notas levemente cítricas com fundo amadeirado. Perfeito! Começamos a resolver as questões e fico impressionada sobre o quanto ele é bom em resolver os problemas de calculo.

Quando a aula termina, fico tão nervosa que ao me levantar, uma de minhas baquetas caem no chão. Meus olhos quase se desmancham quando o vejo juntando-a para mim.

- você toca? – pergunta ele surpreso

Por um momento esqueço como formar uma frase – é.. eu tenho uma banda... – vejo João e Edu por detrás dele se acotovelando – quero dizer... eu e os meus amigos – aponto para eles – montamos recentemente a... a nossa banda

- o que vocês tocam?

- rock – responde uma voz empolgada atrás de mim – cantamos cover de algumas bandas famosas mas temos canções de nossa própria autoria – olho duro para ela que por sua vez ajusta uma mecha de cabelo para trás da orelha. Logo em seguida diz andando em direção a dupla que já passa entre as carteiras em direção à porta – meninos... preciso mostrar algo para vocês  

Desde quando meus amigos se tornaram tão intrometidos?

- muito bacana! – diz Jed voltando minha atenção a ele, entregando-me o objeto. Pela primeira vez eu consigo perceber a cor dos seus olhos. Lembram-me canela em pó.

- obrigada.

Sinto minhas entranhas se moverem enquanto penso loucamente em algum tópico para uma nova conversa, mas o sinal toca insistentemente nos lembrando que precisamos ir para nossas aulas. Somos obrigados a nos mover. Meus amigos estão na porta da sala me esperando. – então até a próxima aula! – pronuncio as palavras com cuidado apertando a alça da minha bolsa

Então ele olha para o chão antes de voltar a pousar os olhos em meu rosto novamente – posso ter teu número?

Minha visão escurece. Ele pediu mesmo o meu número?

Ele coça a cabeça antes de entregar o celular – acho que de hoje em diante precisaremos nos reunir com maior frequência para os trabalhos...

– trabalhos – repito – claro, claro!

Digito o número do meu telefone e esboço um “a gente se vê por aí” antes de sair. Parece que pela primeira vez o horóscopo acertou. Estou com uma sorte danada! Encontro meus amigos que abafam risadinhas maldosas.

- o quê?

- você perdeu de ver... – responde Mel apoiada em João e o modo como eles estão me faz entender que está rolando alguma coisa no ar. Entre eles... Preciso ter uma conversinha urgente com ela!

- o quê?

- Alice estava se roendo de raiva quando viu você digitando alguma coisa no celular do mauricinho – fala Edu carrancudo, fechando seu caderno de música. Ele compõe a maioria de nossas canções

Sorrio triunfa dando de ombros – e daí?

- A ouvimos murmurar algo como “você não perde por esperar sua vadia” quando passou aqui – arremata Mel fazendo uma péssima imitação de voz colocando as aspas no ar

- ah... cala a boca!

Sorrimos.

Tenho aulas de filosofia e sociologia, literatura e língua inglesa. Quando tudo termina, maradonna nos recebe prontamente. Vamos juntos até o club – que na verdade é um pequeno galpão do avô da Mel que servia como deposito de peças de sapataria - Está tudo pronto para o ensaio até que recebo uma mensagem de Helena me pedindo para passar com urgência na Biblioteca Central para socorre-la com uma leva de livros.

Ah! O sonho dela é ser historiadora e trabalhar em um museu. - há gosto para tudo nesse mundo.

- galera... comecem o ensaio sem mim... – digo pegando minha bolsa

- o que?

- ahh... fala sério Halley!

- Helena – digo dando de ombros - ao que parece, ela tem um trabalho importante e precisa de informações que ela considera especial sobre uma guerra que aconteceu no país em 1840

- para ela tudo é demasiadamente importante! – replica Raissa revirando os olhos

- juro que não vou me atrasar!

Saio mas ouço a tempo de desaparecer quando um dos garotos comentam o quanto minha irmã é chata.

Disso eu não posso discordar.

 

*      *      *     *

Ao contrario de Helena, um dos últimos lugares do mundo que eu frequentaria sem duvida alguma é a biblioteca. Talvez eu entraria nesse lugar apenas para utilizar o banheiro gratuitamente.

Odeio o cheiro de livros antigos – sempre me fazem espirrar por causa da rinite -, o silêncio perturbador que o ambiente proporciona e as histórias arcaicas que são guardadas aqui. Além do mais, estamos na era da computação! Dãhn! Pra que perder tempo procurando informações de um jeito mais difícil se temos a tecnologia ao nosso favor?

- vamos Helena, você vai acabar me fazer perder o horário! – resmungo batendo levemente a baqueta em uma das estantes e me surpreendo com o eco que reproduz chamando a atenção de algumas pessoas

- shiii!! – replica ela colando um dedo sobre os lábios  - quer para de fazer barulho? Eu preciso encontrar mais um livro pra minha pesquisa...

- por que você não usa a sua geringonça?

Ela me lança um olhar duro como resposta antes de voltar à sua penosa procura. Dou de ombros deixando meus cabelos tingidos de vermelho fogo se soltarem do coque mal feito – tá certo... O seu computador. Por que você não o usa para sua pesquisa?

- por que essa informação que eu preciso só tem aqui... -  disse ela, puxando da estante um livro que mais parecia uma enciclopédia. Ela precisa de certo esforço para mante-los entre os braços já cobertos de livros – poderia me dar uma mãozinha aqui?

- se você prometer que a gente vai sair daqui agora porque eu tenho um ensaio... e já tô atrasada...

Ela ajusta os óculos sobre o nariz quando me entrega o monte, e, mesmo em silêncio, consigo imaginar seus argumentos enquanto nos arrastamos em direção ao ponto de aluguel dos livros

Tola! como ela não consegue desfrutar a paz e conexão que os livros podem nos oferecer entre o passado e o nosso presente? Por que ela prefere perder tempo com uma banda estupida que se empenha apenas em fazer barulho excessivo, ficar num lugar aglomerado de gente e rock? Blá blá blá blá blá”.

Não consigo e pronto! 

Deixo-a em casa e volto para o ensaio. Dou o meu melhor na bateria assim como o restante do grupo: Mel e João no vocal e guitarra, Eduardo no baixo. Estamos todos tão empolgados com a apresentação que pela primeira vez a música sai nos acordes corretos. Vibramos quando terminamos. Vamos arrasar na nossa primeira apresentação!

Despeço-me dos meus amigos e entro no maradonna. No banco carona encontro um envelope antigo. Provavelmente deve ter caído de uma daquelas loucas enciclopédias que minha irmã carregava. Penso em joga-lo fora mas algo como curiosidade excessiva me faz abrir o envelope.

O papel está puído pelo tempo e em letra elegante está escrito 14 de novembro de 1841. Que coisa mais bizarra! Tirando o fato de ter sido escrito há quase duzentos anos, é a data de hoje.

Leio e sinto meu estômago revirar... Preciso de ar... Abaixo o vidro da janela antes de reler o texto:

Lady Isabelle Albuquerque Guimarães Dias.

Aimeudeus... tô enlouquecendo!

Está endereçado a mim! Esse é mesmo o meu nome! Respiro fundo antes de continuar:

“Ler essa mensagem é o anuncio de uma jornada que à primeira vista não parece ser destino. Uma vez que a viagem está prestes a começar, a sua vida definitivamente irá mudar”.

Gargalhei jogando o papel em algum canto no porta-luvas. Ligo o carro e vejo meus amigos saindo do galpão. Eles acenam para mim felizes e eu aceno de volta.

Tudo a seguir parece acontecer em câmera lenta: ao fazer uma curva para sair do estacionamento vejo uma forte luz antes de sentir o forte impacto em maradonna que me faz perder a consciência.

 

*      *      *     *

Abro os olhos. Estou deitada em uma cama e o ambiente não se parece em nada com um quarto de hospital ou o meu próprio quarto.

Uma mulher vestida com roupas antigas sorri para mim. Toco na minha cabeça e a sinto envolvida por uma faixa. Meus cabelos estão longos e não estão tingidos de vermelho. Minhas unhas não estão mais pintadas de azul cintilante.

Lembro-me da previsão do horóscopo e da carta que eu li anteriormente. Um desespero ameaça me envolver enquanto a mulher estranha se aproxima de mim.

Acho que minha jornada acabara de iniciar....

[continua...]

 

Jeiane Costa.

jeianecosta.novel@outlook.com

www.meioaspalavras.blogspot.com.br

 

*Jeiane Costa: Brasileira, nascida em 28 de março de 1991, descobriu o amor às palavras ainda criança. Desde adolescente escrevia textos com pequenas narrativas apenas para diversão da família e amigos. Paralelo a isso, sempre buscou se expressar através da arte com desenhos que retratassem o ser humano e o meio no qual está inserido. Sempre almejou tornar-se romancista. Atualmente, colabora com o Portal Olhar Dinâmico através do projeto “Sobre o amor” onde apresenta contos e ilustrações que tratam à temática. Sonha em alcançar leitores adultos que ainda possuem no coração o romance juvenil.