A OMISSÃO TAMBÉM MACHUCA
Por Eriberto Henrique
No fim de cada dor, sempre surge uma desculpa pronta. Sempre aparece alguém para dizer que foi paixão, impulso, calor da emoção; que ninguém queria machucar ninguém. Mas machucaram. E quando ligamos a televisão e vemos o absurdo sendo tratado como se fosse normal, entendemos que algo se quebrou profundamente em nós. As coisas boas parecem cada vez mais distantes porque o mal, todos os dias, encontra espaço, vence em silêncio e se transforma em uma das marcas mais cruéis da nossa sociedade.
Nas redes sociais, todos parecem defensores de alguma causa. Mas, quando a violência acontece na rua, diante dos próprios olhos, muitos se limitam a filmar, fotografar, postar e compartilhar. Até criticam, mas deixam o mal agir primeiro para depois transformar a dor alheia em engajamento. Quando uma criança é xingada e hostilizada dentro de um estádio, e adultos que se dizem pessoas de bem permanecem calados, mostramos ao mundo uma doença moral profunda: orgulho, ignorância, covardia e falta de amor ao próximo. Passamos a tolerar crimes, a normalizar a barbárie e a tratar a civilidade como se fosse uma ideia impossível.
Atos como esse revelam que estamos perdendo o que ainda deveria nos sustentar: humanidade, espiritualidade, respeito, empatia e bom senso. Esse episódio vai passar, como tantos outros passaram, mas novos absurdos virão, todos os dias, em todos os lugares, porque o crime já virou rotina e a indiferença se tornou hábito. Ontem foi uma criança que queria apenas a camisa de seu ídolo. Amanhã poderá ser uma mulher, um idoso, um animal, uma pessoa negra, ou qualquer outro alvo escolhido pela intolerância. Ontem, muitos que levantam bandeiras nas redes também estavam naquele estádio, porém na hora da covardia, não defenderam aquela criança. Quando o mal acontece diante dos seus olhos e você se cala, filma ou se omite, não é apenas espectador: você ajuda o mal a vencer mais uma vez.
Fica a Reflexão
Eriberto Henrique
ÚLTIMAS NOTÍCIAS UOL