"O Filho Perdido": mãe transforma dor, amor e memória em um relato de coragem
Jornalista narra a dolorosa trajetória ao lado do único filho, diagnosticado com transtorno de personalidade antissocial, e rompe o silêncio sobre um drama vivido por inúmeras famílias
O Filho Perdido é um testemunho sobre os limites do amor, da culpa e da esperança. Em sua estreia na literatura, a jornalista Irene Vucovix transforma uma experiência profundamente dolorosa em um relato real e contundente sobre a convivência com o único filho, diagnosticado com transtorno de personalidade antissocial e envolvido em uma espiral de dependência química, violência e ilegalidade.
Narrada em primeira pessoa, a obra rompe com a visão idealizada da maternidade ao mostrar as decisões extremas que uma mãe precisou tomar para tentar salvar seu filho e a si mesma.
Em entrevista ao Olhar Dinâmico, Irene fala sobre o processo de escrita, o impacto da publicação, o acolhimento dos leitores e os desafios de expor uma história marcada por amor, perdas e resistência.
1. Em que momento e como foi esse processo de você perceber que amar também poderia significar impor limites, mesmo que isso fosse devastador?
Acho que demorei a me dar conta de que amar também significa impor limites – limites drásticos e dolorosos, algumas vezes. Aos doze, treze anos, quando meu filho começou a usar drogas, eu acreditava que conseguiria convencê-lo a mudar de comportamento apenas conversando com ele, buscando bons terapeutas, linhas alternativas de tratamento. O que ocorreu é que, em vez da pretendida mudança, ele aumentou o consumo e logo passou da maconha para o crack. Foi uma progressão muito rápida, que me colocou numa rotina de enlouquecer: pagar terapeutas e clínicas, pagar traficantes, e mais adiante pagar advogados para tirá-lo da cadeia. Foi nesse momento que me dei conta de que estava tudo errado. A opção era clara: sucumbir com meu filho ou me afastar radicalmente para sobreviver e tentar que ele encontrasse seu próprio caminho livre de drogas e ilegalidades. Foi muito difícil, devastador.
2. Você escreveu que o manuscrito foi um "arrombamento emocional". Depois de colocar essa história no papel, acredita que a escrita mudou a forma como enxerga seu filho ou mudou principalmente a forma como você enxerga a si mesma?
Não foi fácil colocar nossa história no papel, mas hoje, depois do livro publicado, tenho certeza de que amo meu filho mais do que jamais amei. “O Filho Perdido” me obrigou a encarar velhas feridas, relembrar boas e más passagens de nossas vidas, reler lindas cartinhas do menino que ele foi um dia (“Mãe te amo e te adoro. Mãe te amo mesmo e te adoro mesmo.”), reviver nosso afastamento e o fim trágico, que colocou por terra qualquer fiapo de esperança que me restasse. Ao mesmo tempo, foi um exercício de passar a vida a limpo, um exercício de exorcizar a vergonha e a culpa. Eu me vejo agora sem culpa nem vergonha, com a tranquilidade de que fiz o possível e procurei acertar.
3.O livro rompe com a imagem da maternidade idealizada e expõe sentimentos que muitas mães talvez tenham medo de admitir. Em algum momento você teve receio de ser julgada pelos leitores por revelar verdades e pensamentos tão íntimos?
Antes do lançamento do livro, tive muito medo de ser julgada e condenada exatamente por romper com a imagem da maternidade idealizada. Foram meses de intensa gangorra emocional, com sintomas até físicos: sou a mãe que se afastou, que viveu 19 anos distante do único filho – este é um fato. Demorei muito a ter coragem de tirar da gaveta essa história para submeter o original à avaliação de uma editora. No fim, aconteceu o oposto: os leitores me entendem, são solidários, me abraçam.
4.Seu relato aborda um tema delicado: o transtorno de personalidade antissocial associado ao uso de drogas. O que você gostaria que a sociedade compreendesse melhor sobre famílias que convivem com essa realidade, mas costumam enfrentar tudo em silêncio?
Acho que deveríamos falar mais sobre esse tema, porque não existem culpados, apenas vítimas. O transtorno de personalidade associado ao uso de drogas é uma mistura explosiva, incontrolável, e as famílias, de modo geral, carregam esse pesado fardo em silêncio, tendo ainda que lidar com a vergonha e com a culpa. Além disso, como o silêncio se impõe, todas as decisões são muito solitárias.
5.Ao preservar a memória do seu filho, você faz questão de mostrar que ele era mais do que os erros e a violência. Qual foi o maior desafio de equilibrar essa humanidade sem amenizar os fatos que aconteceram?
Não foi um desafio equilibrar a humanidade de meu filho com seus erros e violência. Durante a escrita do livro, ficou muito claro para mim que muitos dos erros tinham relação com o transtorno de personalidade antissocial, e a violência aparecia várias vezes associada ao uso de drogas. Ele foi a soma de muitos filhos: o lindo garotinho de dois anos que apareceu no Jornal Nacional, o menino doce e querido com quem eu viajava nas férias, o pré-adolescente que gostava de ler e me enchia de orgulho, o rapaz violento que me envergonhou muitas vezes, e o homem que não cheguei a conhecer e fez muitas escolhas erradas.
6.Você teve uma longa carreira como jornalista, acostumada a contar histórias de outras pessoas. Como foi inverter completamente esse papel e se tornar, ao mesmo tempo, autora, personagem e principal fonte da narrativa?
Foi uma experiência única e muito rica, como se incorporasse simultaneamente os papeis de entrevistadora e entrevistada, tendo ao lado uma fiscal implacável, que não me permitia excessos nem sentimentalismos. Em alguns momentos, quando a escrita se tornava muito dolorosa e me emocionava, eu preferia parar, guardar o manuscrito, fechar a gaveta. Recomeçava depois, bem depois, com os sentimentos sob controle – precisava fazer isso para ser coerente com a forma como vivi depois de me afastar de meu filho: empurrei o amor para um lugar distante, recôndito, e me obriguei a falar pouco sobre nós, sobre ele. Foi uma maneira de me preservar e de preservá-lo da curiosidade alheia.
7.Desde o lançamento, muitas mães passaram a procurá-la para compartilhar histórias semelhantes. Depois desse contato com os leitores, qual foi a mensagem ou o relato que mais a marcou e que reforçou a importância de publicar "O Filho Perdido"?
Não há apenas um relato que me marcou; há dezenas de relatos que me deixam impactada todos os dias. É impressionante como as histórias se parecem: são mães, avós, irmãs, filhas, quase sempre mulheres, um ou outro homem, que dizem “vivo isso”, “aconteceu com meu pai”, “meu filho me dá medo” e por aí afora. Oxalá o livro possa servir de conforto, de alento para essas mulheres que passaram ou estão passando por situações semelhantes às que vivi.
8.Depois de escrever "O Filho Perdido", o que você espera que permaneça com o leitor quando ele fechar a última página?
Que ele acabou de ler uma história de amor. O amor de uma mãe por seu filho, que transcende passado, presente, tempo e espaço.
Título: O Filho Perdido
Autora: Irene Vucovix (@ivucovix)
Gênero: Não ficção / Memórias
Editora: Geração Editorial
Preço de capa: a partir de R$ 53,49
Disponível em livrarias físicas e plataformas digitais: Livraria da Vila, Livraria da Travessa, Amazon, Estante Virtual e Martins Fontes, além de versão e-book Kindle.
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