Qual a relação entre a saúde bucal e doenças sistêmicas?
A boca funciona como parte integrada do organismo e pode refletir alterações metabólicas, inflamatórias e cardiovasculares
Créditos:istock/seb_ra
Problemas na gengiva, sangramentos frequentes e cáries recorrentes podem estar associados a doenças sistêmicas, como diabetes, doenças cardiovasculares e Acidente Vascular Cerebral (AVC). Uma pesquisa publicada na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia, acompanhou mais de 5 mil adultos durante 20 anos e identificou que participantes com cáries e doença periodontal simultaneamente apresentaram incidência de AVC de 10%, enquanto entre aqueles com saúde bucal preservada o índice foi de 4%. O estudo também associou a má saúde bucal a uma probabilidade 36% maior de ataques cardíacos e outros problemas cardiovasculares.
A relação ocorre porque inflamações bucais persistentes podem desencadear respostas inflamatórias em diferentes partes do organismo. Embora isso não signifique que doenças bucais sejam a causa direta dessas condições, elas funcionam como fatores de risco e sinais de alerta para o estado geral da saúde.
Quando a gengiva inflama, o corpo responde
A gengivite e a periodontite estão entre os problemas bucais mais comuns relacionados às doenças sistêmicas. A periodontite, em especial, é uma inflamação crônica que afeta os tecidos de sustentação dos dentes e pode provocar perda óssea e até a queda dentária.
De acordo com o dentista Cristiano Demartini, CEO da Odontotop, em entrevista à CNN Brasil, a ligação entre saúde bucal e doenças cardiovasculares está relacionada ao processo inflamatório contínuo desencadeado pelas doenças periodontais. "Esse estado inflamatório prolongado está associado ao estreitamento arterial, maior resistência vascular e alteração da função endotelial, mecanismos reconhecidos como gatilhos tanto para doenças cardíacas quanto cerebrovasculares."
Outro dado observado pelo estudo publicado na Neurology foi o efeito protetivo do acompanhamento odontológico regular. Participantes que realizavam consultas periódicas tiveram 81% menos chance de apresentar a combinação de gengivite e cáries e 29% menos probabilidade de desenvolver doença gengival isolada.
Cristiano reforça que a prevenção continua sendo uma das formas mais eficazes de reduzir riscos. "Escovação adequada, uso do fio dental e visitas regulares ao dentista ajudam não apenas a preservar os dentes, mas também a identificar alterações que podem indicar problemas mais amplos no organismo", complementa o dentista.
Diabetes e saúde bucal: uma relação de mão dupla
Entre as doenças sistêmicas associadas à saúde bucal, o diabetes aparece como uma das mais estudadas. Pessoas com níveis elevados de glicemia tendem a apresentar maior predisposição ao desenvolvimento de doenças periodontais, enquanto inflamações gengivais também podem dificultar o controle do diabetes.
José Peixoto Ferrão Júnior, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em entrevista para o blog do Conselho Federal de Odontologia, explica que pacientes diabéticos apresentam alterações na resposta imunológica, o que favorece a instalação de doenças periodontais. Segundo ele, "pacientes com altos níveis glicêmicos são mais propícios a desenvolver a doença do que diabéticos controlados ou não diabéticos."
O especialista afirma ainda que alterações neutrofílicas reduzem a capacidade de defesa do organismo na região periodontal, diminuindo a resistência à proliferação bacteriana. Ao mesmo tempo, o aumento de mediadores inflamatórios pode provocar alterações vasculares que interferem na defesa local.
Essa relação bidirecional faz com que o acompanhamento odontológico seja incorporado cada vez mais às estratégias de cuidado integral do paciente diabético. Em muitos casos, sinais observados durante consultas odontológicas ajudam a levantar suspeitas clínicas que depois são investigadas por médicos de outras especialidades.
Essa visão integrada já faz parte da formação em uma faculdade de odontologia, onde o cirurgião-dentista aprende a identificar sinais sistêmicos durante a consulta e a comunicar achados relevantes a outros profissionais de saúde que acompanham o paciente.
Além do diabetes, outras condições também podem apresentar manifestações bucais, como anemia, refluxo gastroesofágico e doenças autoimunes. Alterações na língua, feridas persistentes, sangramentos e ressecamento oral são indicadores clínicos importantes.
Saúde bucal como parte da prevenção
A relação entre saúde bucal e doenças sistêmicas reforça a ideia de que o cuidado odontológico vai além da estética. A boca funciona como parte integrada do organismo e pode refletir alterações metabólicas, inflamatórias e cardiovasculares.
Assim, consultas odontológicas regulares ajudam não apenas no diagnóstico precoce de problemas bucais, mas também na identificação de possíveis sinais sistêmicos. O acompanhamento multiprofissional, envolvendo dentistas e médicos, amplia as possibilidades de prevenção e controle dessas condições.
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