Psicólogo explica por que o Carnaval altera o comportamento humano e impacta a saúde mental

02/02/2026 10:31
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*Psicólogo esclarece como a euforia e a pressão social por 'ser feliz' no Carnaval podem desencadear ou piorar sintomas de ansiedade e depressão*

O Carnaval é muito mais do que alguns dias de festa; é um fenômeno biopsicossocial que altera profundamente o comportamento humano. Na concepção de muitos, a maior festa de rua do planeta suspende regras sociais e incentiva a busca ilimitada por prazer imediato sem preocupação com as consequências advindas dessa postura. Por isso, é fundamental se discutir o assunto.

 Crédito /Fotos Joilson Pereira 

Para entender melhor os mecanismos comportamentais e biológicos da festa, Rafael Peixoto, psicólogo do Programa de Dependência Química da Clínica Holiste Psiquiatria, sediada em Salvador, explica que o Carnaval pode ser compreendido como um ritual coletivo em que as regras que organizam a vida cotidiana, como contenção, autocontrole e adequação social, são temporariamente afrouxadas. Esse relaxamento cria um cenário propício para que desejos, impulsos e curiosidades que costumam ser contidos ao longo do ano encontrem formas mais diretas e até mesmo distintas de expressão.

“Nesse contexto, observa-se uma maior desinibição comportamental e sexual, com aumento da permissividade para flertes, contatos físicos e experiências que, fora desse período, muitas pessoas evitariam. Há uma busca intensa por prazer imediato, pela vivência do novo e por experiências que subvertam a rotina. O comportamento tende a se tornar mais impulsivo, guiado muito mais pela oportunidade do momento do que pela reflexão mais profunda sobre as consequências”, esclarece o psicólogo.

Segundo o especialista da Holiste Psiquiatria, existe um imperativo social muito forte de que o Carnaval deve ser, obrigatoriamente, um momento de extrema euforia e um estado de felicidade constante. A ideia de que todos precisam estar alegres, dispostos e aproveitando intensamente tudo pode gerar sofrimento em quem não consegue acessar esse estado com naturalidade. “Para essas pessoas, instala-se um sentimento de inadequação e uma pressão interna para “dar conta” da festa, para se permitir, mesmo quando isso não faz tanto sentido emocionalmente. Em alguns casos, o uso de substâncias lícitas ou ilícitas surge como tentativa de alcançar artificialmente o nível de euforia que parece ser exigido pelo ambiente ao redor”, pontual Rafael Peixoto.

Ele ainda destaca que as comparações, intensificadas pelas redes sociais e pela seleção cuidadosa do que é exibido publicamente, ampliam essa sensação de insuficiência, pois a ansiedade pode surgir da tentativa forçada de se encaixar, enquanto os sintomas depressivos podem se aprofundar à medida que o sujeito percebe que suas expectativas não correspondem à experiência real vivida.

O psicólogo do Programa de Dependência Química da Clínica Holiste Psiquiatria complementa: “O Carnaval reúne três elementos muito potentes: anonimato, desinibição e excesso. Essa combinação tende a fragilizar os mecanismos de autorregulação emocional e pode intensificar sintomas que já fazem parte da história psíquica do sujeito. Pessoas com ansiedade podem se lançar a situações que, posteriormente, geram culpa intensa. Indivíduos com instabilidade de humor podem oscilar rapidamente entre euforia e angústia. Comportamentos de risco, como brigas, relações sexuais sem proteção e uso abusivo de substâncias, tornam-se mais frequentes nesse contexto. Um exemplo recorrente na prática clínica é o de pessoas que passam vários dias em estado de excitação, dormem pouco, consomem álcool ou outras drogas em excesso e, após o término da festa, entram em um estado de humor rebaixado, marcado por vazio, apatia e até mesmo arrependimento pelos atos cometidos”.

Rafael Peixoto salienta que, dentre os impactos mais comuns estão: a desorganização da rotina de sono e vigília; o aumento da impulsividade; a hipersexualização dos corpos; a sensação de estar acima dos próprios limites; e uma queda abrupta da energia emocional após o fim das festividades. “O consumo abusivo de álcool e outras substâncias intensifica esse quadro, pois reduz o senso crítico e altera o estado de consciência, favorecendo a perda de controle dos impulsos. Em alguns casos, essa combinação é responsável por atitudes transgressoras graves e por situações de risco que resultam em ferimentos sérios ou consequências duradouras para todos os envolvidos”, ressalta.

O especialista ainda frisa que é fundamental sinalizar que a droga, por si só, não provoca o surto psicótico; ele surge em indivíduos com predisposição, porém o consumo precoce ou em excesso pode acelerar o desencadeamento do quadro. “Algumas substâncias ilícitas podem induzir a paranoias, enquanto o álcool, apesar de socialmente aceito, atua como depressor do sistema nervoso central, podendo levar a alterações rápidas de humor, passando da euforia intensa à sensação de vazio e rebaixamento de humor”.

E finaliza: “Entre os gatilhos mais frequentes dos comportamentos no Carnaval estão a música repetitiva e envolvente, que mantém o corpo em constante estado de excitação, o uso de álcool e outras drogas como facilitadores das interações sociais, o contato corporal intenso e a erotização permanente dos corpos no espaço público. A ideia amplamente divulgada de que “o que acontece no Carnaval fica no Carnaval” funciona como uma autorização simbólica para ultrapassar limites pessoais e interpessoais, criando a ilusão de que não haverá consequências posteriores. Muitas pessoas reconhecem esse movimento ao lembrar de situações presenciadas ou vividas, como excessos no consumo de álcool, invasões do espaço do outro ou decisões tomadas sem reflexão, que depois geram desconforto, culpa ou conflitos quando o ritmo da festa se encerra e a rotina é retomada”, arremata Rafael Peixoto, psicólogo da Clínica Holiste Psiquiatra, sediada em Salvador e referência nacional em saúde mental.

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