FOGO E GELO: 3 Halley. Por Jeiane Costa*

06/12/2017 22:43
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CAPÍTULO ANTERIOR: Halley, uma garota que tem o sonho de se tornar uma grande estrela de rock, ouve na radio uma previsão maluca ao mesmo tempo em que encontra uma mensagem destinada a ela (escrita no ano de 1841) que a leva a uma louca viagem no tempo...  Involuntariamente ela inicia a experienciar essa maluca expedição no passado. As  mudanças começam com seu próprio corpo: seus cabelos agora compridos, não estão mais tingidos de vermelho, nem suas unhas estão roidas e pintadas de azul cintilante. Uma desconhecida parecida com as ilustrações dos livros de História afirma ser sua prima enquanto uma mulhar intimidante apresenta-se como a baronesa... Para arrematar a situação, o garoto que ela está apaixonada aparece usando costeletas e dessa vez é irmão mais velho de uma garota que é a copia de sua melhor amiga, a Mel. Para seu desespero, ele é noivo de sua suposta prima....   

 

HALLEY

 

Dizem que a curiosidade matou o gato. A curiosidade não me matou, porém me trouxe para esse lugar. Veja só, eu não sou o tipo de pessoa criativa que sofre a síndrome de Peter Pan que deseja ser criança para sempre e vive a imaginar o país das maravilhas - que não tem nada de maravilhoso nele - ou adora conversar com amigos imaginários... Ou seja lá o que for...

Se arrependimento matasse, agora eu estaria morta e enterrada, durinha a sete palmas debaixo da terra! E isso sim seria muito triste. Seria ouvir as cortinas se fecharem no palco anunciando o fim. Seria a pior notícia de todos os tempos porque as pessoas perderiam a chance de conhecer a mim: Halley, a futura grande rock Star.

Por que diabos eu li aquele bilhete? Por que eu ouvi o anuncio daquele horóscopo maluco? Aliás, este era para ser uma grande mentira como todas as outras previsões de antes, não era?

Contudo....

[suspiro]...

Eis que estou aqui perdida em algum canto do Brasil na época em que o país era regido pelo imperador em 1841. Para meu desespero, eu realmente não estou em casa. Estou agora cercada de pessoas completamente desconhecidas, com costumes estranhos.

Aimeudeus!

Ouço o burburinho de uma conversa que não faço a menor questão em participar. A baronesa fala como uma linguagem arcaica sobre os dotes incríveis de sua perfeita filha Cordélia, que por sua vez, ruboriza com tais palavras, mas como qualquer garota nesse mundo sente seu ego inflar a medida que sua mãe tagarela ao seu prometido.

Olho à minha frente, e, meus olhos permanecem petrificados com tanta injustiça do destino! Ainda não consigo acreditar que Jed, quero dizer, Heitor... Ou seja lá quem for ele agora, está noivo de minha prima do passado. Fala sério, né? Logo agora que estávamos ficando próximos...

- quando terei a honra de encontrar meu futuro sogro? – pergunta Heitor com o mesmo sorriso encantador que me lembro de sua cópia deixada no futuro

- recebi uma mensagem de que ele chegará esta tarde. Aliás, chegará ele e meu filho Joaquim. Vosmecê o conhece? Ele é um belo rapaz. Foi para a capital da Província para continuar os estudos. Em breve teremos um doutor na família! – acrescenta ela como uma leoa que lambe orgulhosamente a cria

- talvez eu o conheça, senhora – reponde ele um tanto reflexivo

- sinhá – interrompe a conversa uma criada tão maltrapilha quanto Rosa – o armoço está servido

- Então, vamos para a sala de jantar? – diz a baronesa com a postura de boa anfitriã aos convidados esboçando mais uma vez um sorriso nos lábios – por aqui!

No caminho para o outro cômodo sou surpreendida por uma criança de aparência esmirrada de talvez treze anos. Docemente, ela segura minha mão.

- Lady Isabelle! – sussurra. Meus lábios pela primeira vez consegue expressar o sorriso mais gentil para a garotinha, apesar de não ser reconhecida pelo meu apelido.

- você é... quero dizer – pigarreio – Quem é vosmercê?

Ela arregala seus olhos na cor de jabuticaba que são cópias exatas dos de Cordélia  - Matilda – afirma ela, confusa - Irmã de Cordélia.

Assinto e observo-a se mover. Apesar de mais nova, sua postura delicada deixa claro sua educação. Sem dúvidas alguma ela é filha da baronesa.

Sento-me entre as duas irmãs. Ao lado da guria está uma mulher vestida com trajes e expressões rígidas, tais como a baronesa. No outro lado de Cordélia o assento está vazio bem como a cabeceira da mesa que pertence hierarquicamente ao barão. No lado oposto está à baronesa, ao seu lado Mel, quero dizer, Leopoldina e seu irmão Heitor. Logo em seguida, vejo os gêmeos - que por suas brincadeiras incessantes, logo aprendo seus nomes: Henrique e Edmundo.

A hora da comida é uma festa: é servida pelos criados uma espécie de sopa. O pequeno Henrique como um garoto mimado de sua idade, começa a choramingar que ele quer comer manjares ao invés desse “caldo-sem-graça”. Suas lamurias incessantes me fazem antipatiza-lo ao ponto de desejar que ele desapareça.

- eu não gosto de consommé, mamãe... Quero manjar!

consommé? Caraca, que chique! Então as pessoas comem pratos franceses nessa época? Pego a colher de prata e toco a refeição posta na porcelana fina – que faria mamãe enlouquecer meu pai por um jogo igual - e remexo o caldo. Percebo que estou diante de uma verdadeira mistureba: tem cebola e tomate picados, cenoura, couve, uma espécie de rabanete... toucinho... salsicha? Ãhn... carne?

A garotinha animada enche a boca de sopa me encorajando. Por fora estou como Cordélia, que mantém sua fineza de garota da corte; por dentro me sinto como Henrique e sua antipatia infantil.  Fecho os olhos e sinto o aroma da iguaria. Meu estômago traidor ronca...  Provo.

Meus olhos arregalam atraindo a atenção de minhas primas que discretamente sorriem de mim.

- delícia! – surpreendo-me. Até que a comida do período imperial não é tão ruim como imaginei

- o que é isso? – sibilo a Cordélia referindo-me a pasta estranha que foi servida ao lado do caldo

- pirão escaldado de farinha de mandioca – sussurra ela, servindo-se desse alimento com a mesma naturalidade de quem come hambúrguer no Mcdonalds com Coca-Cola

- o quê?

- Henrique! – interrompe a baronesa os meus pensamentos, repreendendo o guri – não pense que é porque vosso pai não está a cá que vosmecê pode fazer um sarau! Nesta casa criança não se governa! Coma o consommé!

- mas eu não quero mamãe! – suplica o menino choramingando

- esta é a ultima vez que vos digo: na gramática da criança não existe a conjugação do verbo querer! Coma!

Silêncio da parte dos convidados.

Edmundo apesar de possuir a mesma idade e aparência do irmão, serve-se de uma boa porção do caldo e enche em seguida a boca com pirão para orgulho de sua mãe.

- veja só Henrique – diz a baronesa enfadada – seu irmão está comendo exemplarmente o consommé. Vosmecê poderia ser parecido com ele também nesse aspecto!

Todos não deixam de observar o garoto birrento durante a refeição, ainda perplexos - Henrique, Leopoldina – continua a baronesa, voltando-se dessa vez para os convidados – peço-lhes desculpa por essa situação!

- crianças... – replica, Heitor sugestivamente  – não se preocupe, baronesa!

Henrique em silêncio mastiga amargamente os ingredientes da refeição para satisfação de todos de sua família e para sua infelicidade. Algo em sua expressão me traz certa cumplicidade em relação ao garotinho... Ele e seu irmão gêmeo são o meu reflexo e de Helena em minha casa, no futuro.

Comemos então o prato principal. Dessa vez é arroz com frango, fortemente temperado com pimenta, acompanhado por uma pirâmide de laranjas.  

Rapidamente aprendo o motivo das laranjas não terem ficado para a sobremesa: elas aliviavam o ardor da pimenta.

Para finalizar o grandioso momento, experimentamos o tal manjar tão solicitado por Henrique: O garotinho está coberto de razão por sua preferência! Os doces cobrem-nos os sentidos. São tão deliciosos quanto belos em aparência. O frescor de seu cheiro é suficiente para nos fazer deseja-los como os gregos desejavam experimentar a ambrosia.

O sabor confrontava todo esmero do banquete.

 

*     *      *      *       *      *     *

Após a refeição, a mesa se desfaz e cada qual segue com suas atividades rotineiras. Com exceção da prima Cordélia que tem Heitor como companhia. Vejo-o conversando com ela de maneira que noto corações flutuando sobre ela enquanto caminham em direção a um jardim.

A pequena Matilda e a governanta de feição amarga, vão para uma sala para aula particular. A baronesa, acompanhada por Leopoldina recolhem-se para o terraço da casa e dedicam atenção a pedaços de pano entalhados, linhas e agulhas. Sou convidada a participar do grupo, mas encontro o calor como desculpa suficiente para não me envolver em trabalhos manuais.

Ao contrário de Helena que certamente faria em excelente trabalho bordando letras e nomes em guardanapos, eu posso quebrar a agulha, ou cortar os meus dedos por acidente. Então eu nunca mais poderia tocar bateria e me tornaria uma velha rabugenta. Sentada em uma cadeira de descanso antiga, ficaria amargurada até os últimos momentos de minha vida e meus amigos se recusariam a me visitar por tamanha antipatia.

Help!

Acompanhada por Rosa, saio a tempo de ver os pequenos Henrique e Edmundo brincando com varas semelhantes a espadas meio a uma luta imaginária de gladiador. Eles correm em direção a Leopoldina e a baronesa os adverte para procurarem outro lugar para brincarem.

 

*     *      *      *       *      *     *

 

Ao passar pelos seis degraus de cantaria da frente da casa, noto que ela fica frente às colinas. Ao contrário do cenário que eu vejo comumente - prédios, ruas asfaltadas, semáforos e carros barulhentos – logo são substituídos por uma vastidão verde. Pouco se tem ao derredor muros ou cercas, o chão é de terra batida, (obviamente) não há carros ou uma multidão de pessoas andando apressadamente para seus compromissos acompanhados por celulares e pastas amarrotadas de documentos.

O ar é puro como jamais respirei e isto graças à vegetação espessa no derredor, no que se diz respeito a pomares e hortas, canteiros e jardins com as mais belas flores. O sol mostra-se glorioso no céu, contrastando seu brilho às nuvens meio ao azul perfeito.

Mais adiante vejo deslumbrada com a existência de diversas plantações e árvores: perobas, bambus, cidreiras, cedros, copaíbas que se unem a antiga mata deixando o espaço harmonioso e agradável aos olhos.

- Rosa – digo abanando um leque rendado que encontrei na sala  – que lugar estupendo esse, hein? tem algum rio por perto?

- tem sim, sinhá...

- onde fica? Me leve até lá – imploro segurando a mão da criatura que arregala os olhos, talvez pela proximidade

- próximo à casa-grande há um rio... – diz ela, e apesar de curiosa, empenha-se em manter a visão em direção ao chão

- leve-me até lá! – peço, apertando sua mão – por favorzinho?

Dessa vez sinto seus olhos incrédulos encontrarem os meus. Claramente embasbacada com minha atitude, seus lábios ficam entreabertos como se ela fosse falar alguma coisa. Todavia, ela apenas volta a sua posição anterior.

Pigarreio.

- Rosa – falo, dessa vez tentando imitar a postura da baronesa – leve-me até o rio!

Então vejo a confusa criada mover os pés descalços em direção ao lugar que mencionara antes. Ao passarmos por um pequeno canteiro, sem piedade alguma arranco uma flor e começo a despetala enquanto vejo o casal de pombinhos que ainda caminham tranquilamente entre o jardim. Ela sorri de algo engraçado – ou atrevido -  que ele lhe dissera e a maneira que seu corpo se move faz com que a ponta do xale lhe caia do ombro.

A penúltima pétala de minha vítima cai no chão quando ele prontamente ajuda sua dama a se recompor. Reviro os olhos com a cena. Apesar da inconveniência do compromisso, justiça seja feita: Ela é incrível!

- vamos, Rosa!  – murmuro, pisando duro apesar de tanta tralha desnecessária me ornamentando – quero ver esse tal rio!

A pobre criada, acostumada aos caprichos de seus senhores, obriga seus quadris largos se moverem mais uma vez, no entanto, sem quebrar o seu silêncio profundo até o momento em que finalmente escuto o som de água caindo sobre uma rocha em algum canto atrás da vegetação.

- chegamos? – pergunto segurando-a pelo pulso a fim de chamar sua atenção.

- chegamos, sinhá...  

- Ah! – grito - Cala a boca! – corro (como uma lesma, mesmo segurando os milhares de camadas de tecidos sobre os pés para não desabar no chão) em direção ao barulho maravilhoso que invade meus ouvidos

Então me deparo com o cenário de certa maneira inesperado... Parece com aquelas pinturas do “descobrimento” que tenho nos livros de história que artistas do mundo inteiro tentaram ilustrar. Abaixo-me e toco a borda da água cristalina com o intuito de me certificar de que tudo é real. Meu coração acelera ao sentir sua frieza. Contraditoriamente sinto-me um picolé derretido...

Um passarinho canta ao longe na copa de alguma árvore por perto como se anunciasse nossa presença, atraindo mais aves para perto. Como a baronesa não aproveita essa grandiosidade junto de seus convidados? Ela prefere ficar tecendo sob companhia de Leopoldina... e...

Acomodo-me sob uma rocha e enquanto vejo o percurso correnteza ininterrupta do rio seguir à diante, meu coração parece sufocar. Lembro de meus amigos, de Mel. Eu preciso voltar para o futuro! Tenho que urgentemente voltar para casa!!! Hoje tecnicamente é o dia do nosso primeiro concerto. Seria alta traição com meu grupo!

Mas como acordar desse sonho maluco?

- Preciso de um plano... – sussurro enquanto lavo o rosto com a água. Estremeço com o toque gelado sob a pele

- vamos, Rosa. Precisamos voltar!

Digo e apesar de manter sua habitual quietude, leio em seus olhos a expressão “muito barulho por nada”.

A volta para o casarão parece ser mais rápido que a ida. Enquanto caminhamos, minha mente mergulha numa profunda brainstorm

- Pensa Halley, pensa... – sussurro colocando a mão na fronte atraindo a atenção de Rosa que por sua vez me olha como se eu tivesse perdido a razão. Ignoro abanando-me com o leque, em rítimo mais acelerado.

Seria um portal mágico ou uma determinada comida que me faria voltar? – muito improvável... Isso acontece apenas nos livros de fantasia

Que tal um relâmpago?  - penso, olhando para o céu - impossível, o céu está mais brilhante que o verão no deserto do Saara...

E se for um choque?

Nesse instante, ouço o som de cavalos trotando em direção à entrada principal. Ao ver o anúncio dos belos animais da comitiva se aproximando, vejo uma ideia brilhante surgir. E se... E se eu trombasse em algo em alta velocidade? Tal ato me traria de volta para o futuro ou me mataria?

Meu coração salta do peito e um calafrio percorre minha espinha quando decido o que fazer.

Esse é o momento certo de agir! A ideia é interessante, mas se eu falhar, isso será a minha sepultura. Engulo seco ao notar a comitiva mais perto. Um grupo de criados se aproximam da frente do casarão a fim de saudarem o morador. Tudo a seguir acontece em câmera lenta...

Calculo o momento certo e deixo os dados serem lançados no momento que fecho os olhos... É agora!

Cruzo os dedos e com braços estendidos lanço-me na frente de um dos cavalos.

1.. 2... 3.. e já!

Ouço o relinchar estridente de um cavalo ao mesmo tempo em que mãos me puxam pela cintura e cinto o meu corpo mover-se no ar.

Abro os olhos.

 

Então deparo-me com ele.

Vejo meu rosto próximo ao de um familiar-estranho...

 

[continua]...

 

Jeiane Costa.

jeianecosta.novel@outlook.com

www.meioaspalavras.blogspot.com.br

 

*Jeiane Costa: Brasileira, nascida em 28 de março de 1991, descobriu o amor às palavras ainda criança. Desde adolescente escrevia textos com pequenas narrativas apenas para diversão da família e amigos. Paralelo a isso, sempre buscou se expressar através da arte com desenhos que retratassem o ser humano e o meio no qual está inserido. Sempre almejou tornar-se romancista. Atualmente, colabora com o Portal Olhar Dinâmico através do projeto “Sobre o amor” onde apresenta contos e ilustrações que tratam à temática. Sonha em alcançar leitores adultos que ainda possuem no coração o romance juvenil.