FOGO E GELO: 2 Halley. Por Jeiane Costa

23/11/2017 17:57
noticia FOGO E GELO: 2 Halley. Por Jeiane Costa
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CAPÍTULO ANTERIOR: Halley, uma garota que tem o sonho de se tornar uma grande estrela de rock, ouve na radio a previsão para o seu horóscopo do dia anunciando que ela teria sorte no amor, mas algo deixaria sua vida literalmente de ponta-cabeça: ela enfrentaria uma tempestade que viria do passado. Ela nunca acreditou nessas premonições até que, coincidentemente Jed - o garoto da escola que ela era afim - finalmente se aproxima dela, e, ao levar sua irmã gêmea para casa, ela encontra uma mensagem destinada a ela (escrita no ano de 1841) que a leva a uma louca viagem no tempo...

 

HALLEY

Abro os olhos. A luz que atravessa as janelas e ilumina o quarto indica que é manhã. Minha cabeça lateja como se eu tivesse levado uma pancada forte o suficiente para romper todos os meus nervos, e, considerando o fato de eu ainda estar viva, essa é uma maneira esplendida de começar o dia. Por reflexo toco a fronte e sinto a textura de faixas envolta na cabeça.

Com certo esforço, sento-me na cama. Então noto que certa maneira não sou mais a mesma: meus cabelos – agora longos – caem como cascata sobre os ombros e pendem até o quadril em seu tom natural. Ao puxar a colcha para me libertar da cama, vejo com certa estranheza minhas unhas que não estão mais roídas e pintadas de azul cintilante. Ao ficar de pé, percebo que estou usando um pijama esquisito que mais se parece com uma vestimenta de idosa. Uma breve expedição pelo ambiente com os olhos e noto que o quarto...

 Aimeudeus , o quarto!

Calma Halley... respira! Um, dois... um, dois... um, dois... um, dois...

Aaaahhh!

Cadê meus pôsteres que eu demorei penosos três anos para juntar e colar caprichosamente nas paredes? Cazuza, Bom Jovi, Ellegarden, Paulo Ricardo, Avirl Lavine, Rita Lee, Switchfoot... e... e meu celular? Cadê a droga do meu celular?

Eu vou morrer!

Talvez eu esteja sonhando... É isso! Talvez tudo não passe de um pesadelo idiota!

Afasto-me da cama e sabe-se lá como, tropeço na ponta de um tapete e me estabano no chão como uma jaca madura.

Ai!

Impossível! Isso é real! Sem dúvida alguma é real: A leve dor de cabeça, a sensação dos fios de lã do tapete que toca parte da minha pele nua, o cheiro de flores envelhecidas em algum canto do quarto e a intensidade do ar fluindo em meus pulmões livremente nesse exato momento...

Suspiro confusa enquanto examino minunciosamente cada objeto que me cerca.

Uma angústia começa a entrar em cena à medida que me sinto abandonada dentro de um daqueles museus históricos que Helena me obrigara a acompanha-la durante suas pesquisas de campo há algumas semanas atrás... O cômodo é fenomenal. Aposto que ela morreria por um igual!  

Ouço um ruído seguido por passos ordenados vindo nessa direção. Encolho-me sobre o tapete como uma bola e ao passo que sinto a proximidade de quem chega, minha garganta fica seca. Meus olhos petrificam quando ouço a porta se abrir.

- Isabelle! – exclama uma mulher desconhecida após romper a porta. – vejo que finalmente acordou!

Sorrio amarelo.

- o que aconteceu? – pergunta a criatura de modo sincero - Por que estás encolhida no chão?

- Que pegadinha boa essa, hein? Onde será que colocaram a câmera? – replico, olhando para o teto

Uma segunda mulher, tão jovem quanto à primeira, entra em cena trazendo uma bandeja de prata e uma bacia com água. Deixo escapar um silvo. O bagulho aqui tá ficando ainda mais complexo!

Elas se vestem como figuras ilustrativas dos livros de história. Por um breve instante, meus lábios se desmancham em um sorriso com a lembrança de João se divertindo ao rabiscar aquelas imagens com bigodes pontudos de guidão de bicicleta e óculos de armação arredondados enquanto o professor exaustivamente nos explicava alguma coisa sobre o passado.

 A diferença entre ambas é assombrosa. Enquanto a primeira é marcada por uma postura naturalmente elegante, coberta por tecidos finos, a pele alva e cabelos bem penteados, a segunda possui a pele morena como chocolate e suas vestes são de um tecido grosseiro em tom pastel. Sua expressão exprime tristeza e de seus lábios não se ouve som algum.

Caraca, onde é que eu tô?

- Isabelle? – meus pensamentos são interrompidos pela dama de tez francesa

- Halley – corrijo, por hábito. A mulher que suponho ser uma criada, ainda em silêncio pousa a bandeja sobre uma mesinha e se afasta como se aguardasse uma ordem.

- Halley? – replica ela, estreitando os olhos. Sua expressão me diz que ela não compreende o que me refiro. Nossos olhos se encontram e ela ruboriza

- prefiro ser chamada assim! – digo, exausta de justificar o motivo da escolha do apelido - como uma futura super-star do rock, sou Halley, tão esperada quanto o cometa que possui essa nominação

Ela libera um breve suspiro meio a um sorriso cuidadoso enquanto ajusta um cacho de seu penteado que saiu do lugar. Tomada por uma curiosidade incontrolável, cuspo a pergunta: - quem são vocês?

Uma interrogação paira no ar. As duas se entreolham e obrigo-me a corrigir minha questão:  - quem são... vosmecês?

A de postura senhoril pigarreia antes de responder – sou Cordélia. Não se lembra de mim? Sou vossa prima!

Prima? Só me faltava essa...Ter uma prima que mais se parece com uma figura do livro de história ainda por cima chamada Cordélia... Fala sério! Isso está ficando cada vez mais bizarro!

Minha cabeça lateja como lembrete. Arrasto-me até um banquinho acolchoado que fica em frente a uma penteadeira estilo boneca barbie. Minha boca se escancara com o reflexo que encontra no espelho: uma garota pálida de olhos grandes, lábios naturalmente rosados como romã, cabelos loiros e compridos. Em outras palavras, vejo Helena em mim mesma.

- vosmecê está bem? – pergunta a suposta prima aproximando-se de mim delicadamente como uma boneca de porcelana

- o que aconteceu? – replico, tocando a fronte ainda chocada com a imagem que vejo

- não se lembra? Vosso pai a enviou para cá há três semanas... Vosmecê estava a cavalgar quando caiu e...

- Ah... cala a boca! – digo esbaforida enquanto me levanto agitando as mãos exageradamente – cai do cavalo? Eu estava cavalgando? Não, não, não, não! Definitivamente está acontecendo um grande equivoco aqui. O máximo que eu faço é subir no skate de Edu... Ou dirigir o Maradonna... mas... mas Eu JAMAIS montei um cavalo antes!

A criatura assente como se estivesse ouvindo um alienígena se expressando – vosmecê quer que eu me cale?

- não, não, não! – corrijo-me envergonhada ao nota-la confusa – isso é uma gíria... Digo, uma expressão!

Ela pousa a mão sobre o queixo.

- quanto tempo eu dormi?

- três dias

- três dias?

Ela assente.

Aimeudeus que loucura é essa?

- acalme-se, prima! – pede ela antes de voltar-se para a criada. Após um diálogo silencioso, esta sai do quarto como o diabo foge da cruz

Então me dou conta de que agir como uma histérica não vai ajudar em nada, a julgar pela maneira que a criada desapareceu e pela forma que estou sendo observada pela suposta prima.

“Preciso me recompor... calma Halley.. calma...vamos lá, você consegue!” Repito isso para mim uma centena de vezes com os olhos fechados. Então, lembro-me de ter ouvido uma previsão idiota do horóscopo na radio e de ter lido uma mensagem que encontrei dentro do Maradonna que falava alguma coisa sobre viagem no tempo... Foi algo como...

“Ler essa mensagem é o anúncio de uma jornada que à primeira vista não parece ser destino. Uma vez que a viagem está prestes a começar, a sua vida definitivamente irá mudar”.

- Aimeudeus... tô ferrada! Eu tô muuuito ferrada!

- perdão, o quê disse?

Nesse momento chega à criada e logo atrás uma senhora, mais velha. Sua presença altiva é marcante. Sua postura senhoril intimida. Cordélia imediatamente ajusta a sua postura. Por alguma razão eu estremeço.

- mamãe! – anuncia ela abaixando o olhar logo em seguida

Sua atitude me comove de modo que me ajusto sem pestanejar.

- Isabelle! – exclama a senhora de cabelos grisalhos ignorando a filha – minha querida! Ouvi dizer que estás acordada. Que notícia esplendida! – diz, unindo as mãos com certa rigidez. Seu olhar severo me mantém imóvel – venha até cá, deixe-me examina-la, criança

- tia? – sussurro enquanto me aproximo

- vosmecê nos pregou grande susto! Espero que isso não se repita.

- fique tranquila! Tô firmeza.

Seus olhos saíram do meu, pousando nos da filha voltando para mim em seguida. A criada enxuga um suor que brota na fronte

- então é verdade... – fala ela voltando o corpo em direção a Cordélia que parece prender a respiração - O doutor Afonso já havia me precavido sobre sua condição assim que acordasse. Ela está um pouco fora de si, provavelmente devido o tombo. Deve-lhe ter afetado os miolos – acrescenta, liberando uma risadinha irritante - Céus! Ainda bem que não temos uma noticia mais grave aqui... Seria um desastre enviar uma mensagem de óbito a seu pai...

Eu tô bem aqui! Hellooo? Tô ouvindo tudo o que estás falando de mim!

- Cordélia, não se preocupe minha filha, ela ficará bem. Apenas ajude-a se vestir. Hoje nós temos visita. Não se esqueça de que teu noivo está a caminho. Ouvi rumores que ele traz consigo a sua irmã caçula dessa vez.

Cordélia franze o nariz com a notícia

- não faça isso! – repreende ela tocando o queixo da filha de maneira rude - Vosmecê não deve demonstrar sua indiferença por ela. Seria péssimo para os negócios do teu pai caso surgisse um escândalo por alguma desavença entre vosmecês!

- claro, minha mãe.

- não se atrasem! É imperdoável atraso nesta casa. Seu noivo está prestes a chegar. – diz ela voltando-se para a porta

Penso em dizer algo, mas o silêncio da jovem me compadece.

- Rosa! –chama ela a criada que prontamente a atende – já sabes o que fazer!

Aproximando-se de mim com a bandeja e a bacia cheia de água, ela começa seu trabalho removendo a faixa de minha cabeça que dá uma martelada. Reprimo um gemido.

Ao terminar de me ajudar a me limpar, a ágil mulher retira de um baú pilhas e pilhas de tecido.

Pra que diabos ela quer tudo isso?

Ela me entrega um par de meias de algodão. Após vesti-las, ela me passa duas tiras de fitas.

- amarre-as cada uma em suas coxas, acima dos joelhos. Desta forma... – explica Cordélia levantando o vestido. Minhas vísceras protestam. Caraca! Quantas camadas de roupa....

- tudo isso é para mim? – gaguejo apontando para a montanha sobre a cama

Ela assente como resposta.

Substituo o chambre quase transparente por uma roupa de baixo de linho branco. Depois, a criada coloca uma espécie de anágua. Depois é colocada mais outra. Perco o fôlego quando o espartilho é ajustado até o ponto que fico cinturada. Nova anágua.

Bolsos são colocados em cada lado do meu corpo e são amarrados por uma fita. Então um tecido é colocado envolta dos meus ombros como um xale de toquim e presos por grampos.

A saia é colocada e amarrada na parte de trás. A parte superior é sobreposta e presa por grampos valorizando meu busto (e atributos femininos que agora parecem existir); as mangas da vestimenta são coladas ao corpo e me vejo com movimentos limitados - logo eu que sempre valorizei tal liberdade, principalmente para tocar bateria! - Por ultimo, tenho sapatos que mais parecem sapatilhas. Rosa os prende aos meus pés por fitas assim como as das bailarinas.

Finalmente termina-se o ritual e o clima natural do lugar não perdoa tanto esmero no quesito moda. Por um instante tenho a impressão de que logo perderei os sentidos...

- como vocês conseguem usar isso? Minha nossa, aqui não é Europa, sabia? Aqui é um país de clima tropical! Verão! Helloo?

Cordélia deixa escapar uma risada de minha tagarelice. Faz um falso semblante de pesar quando ergue mais um pedaço de tecido.

- Ah! Rosa... – diz ela divertida – esquecemo-nos desse aqui!

- o quê? – digo, enrijecida pelo peso que carrego. Essa roupa toda deve ter uns dez quilos no mínimo. Saudade de minha bermuda jeans e regata.... Aaaahhhhhh!

Ela sorri de minha expressão. Sinto-me como a boneca Emília do sítio do pica-pau amarelo.

- venha prima, Rosa irá ajuda-la!

- ninguém vai perceber se eu ficar sem essa vestimenta... – choramingo - já está bom por demais!

- não, não, não! Mamãe é muito exigente. Ela jamais me perdoaria em vê-la em maus trajes. Quer que ela ralhe comigo? – diz ela, e logo percebo que ela tem o poder de persuasão. Helena perderia o convite de oradora para a formatura – venha cá!

Suspiro.

Após a nova montagem, ela me coloca sentada no banco em frente à penteadeira.

- agora os cabelos!

Até a metade da cabeça ela divide os cabelos ao meio. É feito duas tranças (uma em cada lado na parte da frente) que são presas em um coque perfeito na parte de trás. Quando tudo fica pronto, eu me sinto um fantasma da própria rainha Maria Antonieta.

Finalmente descemos as escadas. Um frio percorre minha espinha ao passar por cada degrau. Eu não consigo ver meus pés com tanto tecido! Putz! Pra quê tudo isso? Acho que não vou durar muito tempo aqui...

Helena deveria estar aqui, no meu lugar! Ela provavelmente saberia lidar melhor com tudo isso. Sinto falta de casa! Quero meu quarto de volta, minha cama, meus pôsteres, meus amigos... O Jed! – deixo escapar um pesaroso suspiro ao pensar nele. O que será que ele está fazendo agora?

Meus pensamentos são interrompidos por risadas no cômodo de baixo.

Então me deparo com eles: o próprio Jed e a minha melhor amiga Mel. Meus olhos não desgrudam um segundo do gatíssimo Jed que agora usa costeletas.

Rá! Uma graça!

Os trajes que ele veste segue um estilo completamente oposto ao que eu estava acostumada a ver na escola. As calças jeans e camiseta com estampas de Star Wars foram substituídas por calças ajustadas à pele, arrematadas por uma bota de montaria, colete curto de corte quadrado e botões abertos expondo o babado da camisa. Apesar de sua postura polida, ele possui os mesmos olhos na cor de canela em pó, o que faz meu coração dançar no peito.

Mel mantém a mesma estranha postura de todos na sala. Usa vestido enorme em tom claro – assim como o meu e o de Cordélia – e cabelos com caprichosos cachos na frente e pomposo coque atrás, dessa vez revelando o seu tom natural. Como ela não se sente atordoada assim como eu com tanto calor?

- Sentimo-nos honrados em receber vosso convite, baronesa! – responde Jed simpaticamente a algum comentário da dama de ferro

-Jed? Mel? Caraca! Vocês também vieram para cá?

Todos voltam-se em minha direção. A baronesa torce os lábios para mim, enquanto Jed me olha de maneira confusa como se encarasse uma estranha, ao passo que Mel me lança um olhar de puro desprezo.

Por alguma razão sinto uma vontade de desaparecer dali. Aproximo-me de Cordélia em busca de abrigo. Carinhosamente, ela segura minha mão e me guia em direção ao grupo.

Então escuto a dama de ferro anunciar triunfalmente – Isabelle, quero que conheças Heitor Guimarães de Bragança, o noivo de Cordélia, e sua irmã mais nova Leopoldina Guimarães de Bragança.

Vejo minha visão escurecer por um momento....

Jed está noivo de Cordélia? Mel é a irmã caçula dele?

Jed... Quero dizer, Heitor está noivo de minha prima?

 

[continua]...

 

Jeiane Costa.

jeianecosta.novel@outlook.com

www.meioaspalavras.blogspot.com.br

 

*Jeiane Costa: Brasileira, nascida em 28 de março de 1991, descobriu o amor às palavras ainda criança. Desde adolescente escrevia textos com pequenas narrativas apenas para diversão da família e amigos. Paralelo a isso, sempre buscou se expressar através da arte com desenhos que retratassem o ser humano e o meio no qual está inserido. Sempre almejou tornar-se romancista. Atualmente, colabora com o Portal Olhar Dinâmico através do projeto “Sobre o amor” onde apresenta contos e ilustrações que tratam à temática. Sonha em alcançar leitores adultos que ainda possuem no coração o romance juvenil.