Sobre o amor: conto 7 - Pétala. Por Jeiane Costa

03/10/2017 09:30
noticia Sobre o amor: conto 7 - Pétala. Por Jeiane Costa
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- vovô que pasta é essa? – pergunta um garotinho com olhos curiosos, mãos ansiosas e energia de sobra. Sempre encontrando o inimaginável

Abro os olhos e me deparo com ele segurando uma caixa de papelão um tanto empoeirada. Dentro havia a pasta de couro antiga repleta de lembranças. Ao lado estava amarrado por uma fina corda diversas correspondências. Cartas trocadas por anos.

- onde encontraste isso, guri? – perguntei ainda perplexo por não consegui me lembrar onde eu o colocara.

- debaixo da sua cama – respondeu ele dando de ombros e eu me contentei em não perguntar o que diabos ele fazia debaixo da minha cama, com tanto lugar para brincar.

Ele apertou os lábios assim que pousara a caixa no chão. Certamente esperava uma história por trás do tesouro que ele havia encontrado. Fechei os olhos ao mesmo tempo em que uma brisa percorreu o terraço. O guardanapo que estava sobre uma mesinha se rendeu à pequena dança, tirando o pequeno jarro do lugar.

Por um momento, viajei no tempo: Quarenta anos atrás. Eu realmente não sabia o que esperar quando aceitei atender ao pedido de Pétala em uma de nossas correspondências. Mesmo assim, foi a melhor escolha da minha vida!

Era a primeira vez que pisava em solo brasileiro. Tinha muita expectativa sobre o clima, as pessoas, a língua... Antes de vir para cá, eu morava em Paris. Queria me tornar um grande artista. Então comecei a usar meu talento pintando as pessoas na rua. Confesso que isso incluía as francesas. Uma das melhores coisas que encontrei em Paris foram as boas oportunidades para encontrar modelos vivos.

À primeira vista, meus trabalhos poderiam parecer apenas rabiscos para os críticos de arte, mas sempre havia uma boa história por detrás. Sim! Acredito que a arte é uma maneira de se contar uma boa história. Uma delas é a de Pétala Lins. Atrevo-me a dizer que essa a minha história favorita. Uma legítima brasileira que morava na França para ter a educação da verdadeira elite de seu país. Isso a transformara em uma pessoa única.

Nos conhecemos aparentemente em um dia comum. Era a primeira semana ensolarada após um longo inverno que assolava a Europa e assim como boa parte dos parisienses, eu aproveitei o calor e a luz do sol que saudosamente viera nos cumprimentar. Pombos esfomeados picavam o chão a procura de alimento. Um idoso estendia o chapéu na porta da igreja à procura de esmola enquanto pessoas simplesmente o ignoravam.

Sentei-me nos degraus de uma praça que dava a vista para uma igreja gótica ao mesmo tempo em que nos arredores havia um restaurante que apesar de possuir um tamanho tímido, ainda era a grande opção dos franceses e estrangeiros para o desjejum.

Terminei de apontar meu lápis quando vi uma mulher sentar-se em uma das mesas que tinha como vista a praça que eu estava. O homem que a acompanhava desgostoso, se despediu após tomarem uma xicara de bebida quente e terem algo que pareceu ser uma discussão. Tudo por que aparentemente ela acendeu um cigarro.

Ele o tomou de sua mão e, irritado, o apagou imediatamente no seu pires. Ao contrário da maioria das damas que se intimidavam com tal gesto, ela esboçou uma careta e reacendeu um novo cigarro. Dessa vez de maneira mais insinuada e atrevida para seu furor.  Vi seu colar de pérolas balançar quando ela se recostou na cadeira no exato momento em que ele partiu.

Sozinha, ela ficou com o cigarro estendido enquanto olhava sem ver o movimento na rua. Seus lábios eram de um vermelho vivo e contrastava-se com seus cabelos escuros. Sem perceber, eu passava para o papel sua expressão que era ao mesmo tempo fria e viva como o fogo.

Assim como sua personalidade marcante, ela usava um vestido de renda em tons chamativos e eu não resisti registrar aquela dama tão original.

Mesmo em silêncio ela ainda era capaz de me surpreender.

- com licença – ouvi uma voz delicada dizer - desculpa-me o incômodo senhor! – disse uma mulher repentinamente enquanto se aproximava de mim com seu jeito extravagante

- pois não?  –  respondi, virando-me em sua direção. E... santo Deus! Ela era ainda mais bela do que eu esperava.

Pigarreou a jovem antes de dizer - há algum problema com minha aparência?

Tirei discretamente minha boina e a acomodei no colo. Busquei olhar em outra direção a procura de amparo pelo confronto, aproveitando que um automóvel circulava próximo, mas os meus olhos desejavam naquele instante apenas contempla-la.

- não. De modo algum! – repliquei, embasbacado com a situação inesperada.

- então por que não paras de me encarar?  – continuou ela a dizer, enquanto aproximava-se ainda mais – isso é muito grosseiro de sua parte!

Ela possuía a tez de porcelana francesa, os seus olhos traziam as cores da noite. Como seria possível? Seus lábios bem contornados esperavam uma resposta e pareciam estarem prontos para uma boa discussão.

- certamente, senhora!

Bufou.

- que coisa estúpida é essa que segura nas mãos?

- isso aqui? – questionei ainda perplexo apontando para meu portfólio  – são meus...

- tu és artista ou algo do tipo? – disse ela, sentando-se ao meu lado.

O modo como ela ignorou a frieza do degrau, a deixou mais parecida com um gato. Então ela viu o meu ultimo desenho marcado na página aberta. Esboçando um sorriso e certa admiração, ela disse com uma espécie de surpresa... - essa sou eu?

- sim... - sussurrei - a desenhei enquanto estavas ali – falei, apontando para a mesa agora desocupada

- ah! – disse, ela levando a mão cobrindo a bochecha de maneira feminina, o que me fez crer que ela estava um tanto ruborizada - Então por isso estavas me encarando de maneira tão rude...  – pousando os olhos sobre mim, complementou – se esse é o motivo, estás perdoado!

Meu coração naquele instante parecia ter subido em um cavalo e cavalgado até o monte mais alto do mundo - obrigado. Desculpas aceita.

- só por curiosidade... qual é o nome do artista?

- Yani. Yani Adamo. E o seu?

- Petala Lins – disse, pousando uma mão sobre o queixo – é isso o que querem me transformar sr. Adamo... Em uma flor. Delicada e frágil. Mas eu sou muito mais que isso! Definitivamente não sou uma criatura indefesa!

- as flores são muito complexas – falei fitando seu rosto corado – cada uma tem uma pétala em formato, textura e cores diferentes. E... elas possuem extrema importância para a flora...

Ela pareceu esconder um sorriso diante de minha explicação confusa.

- e essa pasta? – perguntou repentinamente – são mais desenhos?

Assenti.

 - posso ve-los?

- claro! – respondi, estendendo-o para ela. Minhas mãos ainda estavam com os dedos manchados de tinta. Ela suspirou ao segura-los.

Prendendo os lábios, ela passou a folhear as páginas coloridas. Quando passou pela terceira imagem, começou a dizer: - são muito bons, sr. Adamo!

- Yani... – corrigi. Ela sorriu

- Yani? – seus olhos brilharam ao pronunciar meu nome - são muito bons, mesmo!

Meus lábios se afastaram formando um sorriso.

- você... você consegue capturar a alma das pessoas e preenche-las no papel... isso... isso é incrível! É formidável!

- obrigado.

- imagina. Eu agradeço por ter me desenhado... – disse, ela encurvando a postura levemente - É uma pena que foi em um momento desastroso do meu dia.

- perdão?

- aquele senhor que me acompanhava mais cedo, é o meu noivo – disse ela mostrando sua mão que exibia um anel com o maior diamante que já vi em toda minha vida  – veja!

Deixei escapar um silvo. – realmente é uma beleza.

- sim. Para todos que conheço, sim! – replicou ela, baixando a mão, pousando-a sobre o colo – mas para mim, isso é um atestado de prisão. Uma prisão perpétua. Todos querem tomar decisões por mim, “pela minha felicidade”... todos estão moldando os meus sonhos “para minha honra” e...

- você o ama?

Ela me fitou ferozmente. Talvez pelo meu atrevimento.

- sei o que tu deves estar a pensar: A garota rica que tem dinheiro e reclama da sorte! É o que todos dizem...

Neguei com a cabeça. – estou apenas a pensar se tu o amas.

- honestamente... eu... eu o odeio!  - disse ela, por fim. Como se admitisse isso pela primeira vez – eu o odeio com todas as minhas forças!

Meus olhos se arregalaram com a sua postura intimidadora.

- eu o odeio por ser mesquinho. Por querer comandar minha vida e desejar me transformar em apenas uma decoração de sua sala-de-estar e em uma procriadora! Eu sou uma pessoa, sr. Yani... E estou viva! Tenho duas mãos, dois pé e ar nos meus pulmões! Veja! – disse ela, mostrando-me seus membros.

Assenti.

Um silêncio percorreu entre nós até o momento em que percebi que assim como ela veio e facilmente sentou-se ao meu lado, ela levantou-se e foi embora. Contudo, antes de sair, ela falou: - preciso me desculpar, mas preciso ir agora. Tenho agora um assunto urgente para resolver. Passar bem!

 

*      *        *       *

Passei o dia inteiro a pensar naquela mulher. Pensei em sua beleza estonteante, no nosso estranho diálogo... Fiquei com a duvida permeando sobre qual assunto de fato ela saíra decidida a resolver.

No dia seguinte, por alguma razão, decidi voltar àquela mesma praça. Algo como uma intuição me dizia que ela estaria lá.

Meu lábios se soltaram em alívio por eu estar certo. Ela estava no mesmo restaurante de antes. Dessa vez ela estava sozinha. Seus cabelos estavam alinhados assim como sua vestimenta em cor vibrante. Em sua testa havia um pequeno vinco de preocupação, até o momento que nossos olhos se cruzaram.

Ela seguiu em minha direção e dessa vez parecia estar flutuando. Eu repeli o impulso de correr até ela.

-sr. Yani? – disse, ela com a voz mais leve. Seu semblante era como de uma menina que fizera arte.

- pois não?

- resolvido o problema... – disse ela sentando-se ao meu lado como no dia anterior, pousando as mãos sobre o colo. Notei que dessa vez ela não usava o mesmo anel de brilhantes.

Franzi o cenho, antes de responder  - fico feliz que deu tudo certo!

Ela liberou um sorriso, grata – vim aqui apenas me despedir. Hoje mesmo estou indo para o Brasil.

Senti meus olhos se petrificarem  - para o Brasil?

- sim! Para o Brasil. Minha terra natal. Mas antes de ir, gostaria de fazer-te um pedido...

 

*      *        *       *

Trocamos cartas confidentes durante dois anos. Cada carta era um acontecimento novo. Para mim, Pétala foi se tornando a luz do sol no inverno. Ela estava radiante. Ela era radiante. Foi então que ela me convenceu a encontra-la.

Após quase três meses de viagem, o navio finalmente chegou na capital. Fui empurrado para todos os lados por pessoas de todos os lugares do mundo, alguns ansiosos em conhecer essa terra, outros em reencontrar amigos e parentes.

Finalmente, meio a todo esse tumulto encontrei um rosto familiar. Era a minha Pétala! Trazíamos conosco um sentimento diferente. Era algo só nosso. Carregávamos um sorriso no rosto e a saudade apertada no peito. Isso fez com que nosso encontro dessa vez fosse diferente. Nos abraçamos durante uns minutos e senti uma lágrima cair em seu rosto.

- seja bem-vindo! Ela disse em um português que julguei ser perfeito e fiquei encantado como sua voz ficava mais suave nesse idioma desconhecido.

Suas bochechas estavam mais vermelha, assim como ela se movia de maneira mais viva. Sua presença acalorada me comovia. Céus! Eu amava essa garota! Apesar de estar distante de minha pátria, me senti chegar em casa. Nunca imaginei que encontraria em alguém a sensação de ter o meu porto seguro, mas naquele dia tive a certeza de Pétala fora capaz de fazer isso por mim. Ela era o meu porto seguro.

Ela era o meu lar.

 

 

Jeiane Costa.

jeianecosta.novel@outlook.com

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